Sobre meritocracia

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Sou a favor da meritocracia a partir do momento que as pessoas tem condições iguais e chances de progresso. Mas isso não acontece como pregam por aí, pois simplesmente não podemos negar as condições reais, fatores históricos e sociais, quando falamos de mérito. A meritocracia quando isolada em casos específicos, quando coloca-se os participantes da “competição” ao mesmo nível para disputa, torna-se válida, por exemplo, atletas de alto nível com investimentos e treinamentos de alto nível disputando competições de alto nível para ver quem é melhor, quem vence, lembrando que isso descarta o passado de ambos, onde algum deles pode ter algum benefício, nascido em berço de ouro ou começado a praticar a atividade em questão bem antes. Outro exemplo é igualar as pessoas em cargos, como se acontece em uma empresa, a partir daí todos estão em condições iguais para alcançar um próximo nível hierárquico (há quem diga que isso é inválido, por que como humanos os administradores tem preferências que os influenciam nas escolhas, e também que no caso das empresas o método de emancipação profissional muitas vezes pode ser o lucro que um funcionário gera e não necessariamente a honestidade e comprometimento do mesmo). Se nasci rico e continuo rico (ou fiquei mais) qual é o meu mérito, sendo que o sistema em que vivo me favorece? A meritocracia nos diz que atingimos o topo de uma hierarquia de acordo com o merecimento, ou seja, é relativo ao esforço e habilidade que temos, porém isso se torna uma falácia quando somos seres emocionais, optamos por gostos e interesses e não simplesmente pelo valor real das coisas e pessoas a quem conhecemos. Agora uma questão mais complexa é quando aplicam o mérito como base. A meritocracia é arbitrária, e quando envolve-se com o poder torna-se apenas uma ferramenta de publicidade para o mantimento do mesmo, deste ponto de vista, ela seria justa se não fosse apenas otimismo. Na prática é basicamente isso que os meritocráticos fazem, colocam uma pessoa como exemplo para incentivar, “veio de baixo e venceu na vida”, a excessão vira regra e a regra fica fixada como algo possível a qualquer um, “todo mundo pode chegar lá”, é a publicidade do capitalista, pedir mais esforço sempre, pedir que você dispute, dizer que você vai ganhar, mesmo sabendo que as chances de perder são sempre muito maiores. Para cada exemplo de sucesso pode-se apontar milhares de exemplos de fracasso, então a meritocracia é uma falácia, a exceção confirma a regra. A hierarquia social tenta sempre dar favorecimento a quem está no topo, mais dinheiro, mais valor, e aí quando dependemos de quem está acima, o mérito pode ser transformado em gosto. Defender a liberdade e a meritocracia às vezes é até feito por boa intenção, mas há uma uma grave incoerência visto que a meritocracia ignora os fatores históricos e as hierarquias pré-estabelecidas do meio social de cada indivíduo. Colocar um exemplo de indivíduo que conquistou as coisas com esforço como disponível a todos é ingenuidade ou má-intenção, pois ignora-se assim que este fato é exceção e não regra. Se você conhece alguém que se deu bem na vida, e admira isso, saiba que nem todo mundo que quer e faz por onde consegue alcançar os objetivos, a vida não é linda como parece, esse mundo da meritocracia é uma ilusão romantica. Não existe a garantia da prosperidade, como é pregado por meritocráticos, assim como não existe a garantia à felicidade, pois ambas independem de nossas ações e das ações dos outros. Então, espero que todos saibam que meritocracia é uma ideia conveniente e em sua maioria arbitrária, e portanto, falaciosa quando aplicada como regra.


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Para complementar observe o seguinte texto:

TEXTO (por Ibu Junior Martins Piradju)

Numa dessas discussões básicas de faicibuqui, algum tempo atrás, eu perdi uns 30 minutos escrevendo um texto, então eu não quero que ele fique lá escondido na resposta de um comentário rs. Mesmo sabendo que está grande e pouca gente vai ler, fica ai pra quem quiser saber meu posicionamento sobre isso: “Manolo, não partimos de pontos iguais, partimos de pontos diferentes, certo? Então quando você coloca milhões de pessoas para competirem entre si, você tem que levar em consideração diversos fatores.

Primeiro ponto: Diferenças Sociais

Alguns nascem em berço de ouro, outros nascem no lixo, essas duas pessoas possuem chances extremamente diferentes, um já está garantido, porque mesmo que seja um fracassado possui herança, porém a chance dele ser um fracassado é mínima, pois ele vai ter a disposição os melhores colégios particulares, cursos pré-vestibulares, vai ter os melhores contatos dentro das empresas, multinacionais e etc pois está herdando também a influencia e o “network” da família, além de poder se dedicar inteiramente a algo ao invés de trabalhar, estudar, provavelmente sustentar uma casa, recusar propostas do tráfico e sobreviver a violência periférica que normalmente confunde a galera e vira e mexe mata um inocente (mas é na periferia né, então abafa o caso…)

Segundo ponto: Diferenças Raciais

Agora podemos falar sobre o racismo. E cara são argumentos fundamentados em dados, pra gente não ficar em acusações vazias. Bom, nós vivemos num país racista, isto é evidente pelo número de pessoas negras mortas nas periferias, o número de negrxs nas universidades, o número de negrxs ocupando cargos altos em empresas multinacionais e etc… E porque isso acontece? Bom faz mais ou menos uns 150 anos que foi “abolida a escravidão” e esse período de Escravidão durou cerca de 300 anos, nesse momento podemos falar sobre as “heranças”. O(a) negrx trabalhou de graça para o branco durante 300 anos (isso oficialmente) durante todo este período, através do suor dxs negrxs, os brancos construíram seus impérios e hoje as pessoas mais ricas do Brasil, possuem um dedinho lá na escravidão, porque o que houve “Um dia depois da abolição?” Nada, xs negrxs continuaram sendo escravos, só que dessa vez não tinham moradia, nem comida garantidos, ganharam um salário de miséria que nem isso lhe garantiam direito e foram empurrados para longe do centro. Começa a surgir as periferias, favelas e etc, e os brancos continuaram com o dinheiro que herdaram do trabalho dxs negrxs. Enfim isso foi pra explicar um pouco sobre a herança que na grande maioria das vezes, não foi algo tão bonitinho quanto parece… A questão é mais complexa, mas olha só o texto que já deu. Eu quero chegar no seguinte, até hoje a elite é racista, ainda enxerga o negro como um produto secundário, vide as vagas de empresas, pergunta pra alguém que faz RH, existem perfis para contratações e os negros e as mulheres não são os preferenciais, e ai entramos no terceiro ponto.

Terceiro ponto: Questões de Gênero

Então o fato de você ser Branco e Homem dentro de uma sociedade meritocrática já te traz vantagens, você querendo ou não, mesmo se você for o cara mais engajado nas causas do movimento negro, ou o mais preocupado com as questões de gênero, isso não irá tirar o fato de que numa vaga de emprego ou numa negociação, o seu perfil lhe traz vantagens em cima de outros perfis. Se você fosse mulher, sua dificuldade em ser aceita e respeitada numa mesa de negociações iria dobrar, a confiança para contratar um tipo de trabalho específico seria diferente, fora que as questões domésticas iriam lhe fazer uma pressão maior, e trabalhar e cuidar de uma casa iria atrasar seu “processo de ascensão”… As questões de gênero na parte profissional também são complexas e o texto está enorme já, mas podemos falar mais sobre isso e posso lhe passar os dados que justificam os argumentos acima.

Último ponto (existem outros, mas os que eu quero falar pelo menos): Exceção

A ciência social também é uma “ciência” rs. Ou seja, estudos sociais se baseiam em números, dados coletados através de observação, pesquisas de campo etc… Vou dar um exemplo: Quando fazemos um experimento químico, pegamos uma substância e testamos, se a cada 10 tentativas, eu consigo nove resultados iguais e um diferente… O que esse experimento que dizer? Quer dizer que aquela situação se estimulada da forma que eu estou estimulando, estará propensa a dar um resultado igual as outras 9 tentativas certo? E se eu quero que aconteça o que aconteceu com aquela Uma tentativa que deu o resultado que eu queria, eu devo então mudar o experimento, porque ele não está funcionando, correto? Tanto na ciência como na sociedade, não se trabalha com exceções, uma exceção não pauta uma sociedade, se a cada 100 moradores de favela 1 consegue ser um grande diretor numa multinacional, e os outros 99 estão em empregos médios, ou desempregadxs logo eu chego na conclusão que aquele Um é um cara muito esforçado que nasceu com o bumbum virado pra lua e trabalha dia e noite enquanto os outros 99 são preguiçosos, vagabundos que não querem crescer na vida, ou eu chego na conclusão que algo está errado porque apenas Uma pessoa conseguiu uma ascensão significativa? O sistema capitalista trabalha em parte com a relação de miséria/ascensão social. A ascensão social é uma exceção usada pra justificar o “fracasso” dos outros 99, porém não se fracassa por ser vagabundo, se fracassa por existirem limites de ascensão. Já existe uma elite, essa elite já controla muito bem o jogo, pois possui controle da economia e dos veículos de comunicação, logo faz os governos de gato e sapato e existe nós, que ficamos brigando no facebook achando que todos temos chances iguais, e que poderemos um dia fazer parte da elite porque o João Ninguém nasceu no lixo e hoje está na USP, então TODO mundo também pode! Só que não mano, existe também um “limite” pra essa ascensão, porque sem a Ásia pra fornecer mão de obra barata e a África pra fornecer matéria prima a preço de banana, não existe a Linda Europa, e nós estamos mais pra Ásia do que pra Europa rs… Enfim mano é isso, não são argumentos de um “esquedopata” tenho críticas também a qualquer dogma, ou qualquer sistema político que não tenha capacidade de fazer auto-críticas e assumir erros, são argumentos baseados em observações e estudos de uma galera que faz isso muito bem, ajudando a elucidar nossos “achismos” pois se baseiam em dados históricos e atuais, e que se tu quiser e pá, eu te mando os links, de buenas.”

TENTATIVA DE REFUTAMENTO (por Lucas Gelásio Mörschbächer)

Meritocracia não é sobre esforço, é sobre resultado. Quem produz mais riquezas concentra mais riquezas. Para o padeiro e o catador de latinha morrerem milionários, primeiro vocês teriam que aceitar pagar fortunas por pães e latinhas.

TENTATIVA DE REFUTAMENTO 2 (por Tiago da Silva)

Quantos donos de padarias que são ricos começaram como simples padeiros? A maioria… Qual a diferença entre estes e os que vão continuar sendo ‘apenas’ padeiros? Empreendedorismo. Sem falar que se um ignorante semi-analfabeto virou presidente do Brasil, um negro pobre virou ministro do STF e um analfabeto que eu conheço virou mestre-de-obras e ganha R$ 15.000 essa teoria é no mínimo furada…

CONTRA-RESPOSTA

E como se produz resultados quando os meios de produção de “resultados mais valiosos” são inacessíveis a pobres, pois o capital inicial para fundar uma empresa não está ai, disponível a quem não tem nem o que comer no almoço de amanhã. Porque mesmo aqueles que possuem esse capital inicial, e as tais “boas ideias” tem que lidar com a realidade de que mais da metade das empresas fecham até o terceiro ano de vida? Porque fecham? É porque erraram o nicho de mercado, ou porque existe um limite de ascensão aonde para uns terem uma quantia é obrigatoriamente necessário a existência de pobres para trabalharem a um custo baixo, e do pouco que receber, conseguir consumir para a roda continuar girando, e que por isso, não é possível que TODOS os pobres tenham empresas. Chegamos na primeira triste conclusão, para o seu sistema funcionar é necessário além de competição ( e todos sabemos que a colaboração é muito mais eficaz do que a competição, na manutenção de uma espécie) é necessário também a existência de pobres, mão de obra barata, descartável. O sistema meritocrático não funciona se todos forem ricos, até porque ele possuem um LIMITE, e a partir do momento que esse limite é preenchido, mecanismos como a quebra das empresas, desemprego, ou outras coisitas mais, entram em ação. E um ponto que não se pode esquecer é, nós não partirmos de lugares iguais. Numa sociedade racista, machista e que tem aversão a pobre, existe um perfil específico aceito em empresas, e esse perfil não é por exemplo, o da mulher negra, então alguns perfis específicos precisam mostrar duas vezes mais capacidade, precisam trabalhar duas vezes mais para serem aceitos, e caso alguém queira números, estudos mostrando as estatísticas de ascensão de cargos em empresas é o que não falta. E me diz ai, isso é justo? E por último, uma coisa chamada escravidão, que perdurou durante mais ou menos uns 300 anos ( na real, existe até hoje, disfarçada claro, mas deixa queto, fica em off), que enriqueceu uma galera ai, as custas dos negros. O que houve um dia após a escravidão? Os senhores de engenho se redimiram da merda que fizeram e devolveram o dinheiro dos negros? Não, os negros simplesmente continuaram a ser escravos, dessa vez de um salário, eles ainda sofriam ( sofrem ) todo o tipo de racismo, e sem moradia começaram a se ajuntar em partes afastadas da cidade ( as favelas ) e os filhos destes senhores de engenho ganharam uma coisa valiosíssima chama HERANÇA que até hoje,( pois o dinheiro daquela época não simplesmente desapareceu, ele tá ai) serve para uns começarem sem nem um barco alugado, enquanto outros já pescam com redes e varas profissionais e estoque de peixes no mercado. Enfim, o texto é grande mesmo, porque não dá pra explicar em cinco linhas, o porque somente algumas pessoas conseguiram ser RICAS ( não é classe média não, estamos falando RICAS ) enquanto outras já estão fardadas a ficarem para sempre na esfera da produção. Esse texto explica tudo o que envolve a meritocracia? Nem de longe, falta muita, muita coisa pra ser explicada, mas olha o tamanho dele né, enfim.

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Se meritocracia for a capacidade de tirar proveito das coisas e explorar aí a definição é certa, mas não implica que isso seja justo.

É preciso muito mais que esforço para conseguir um lugar ao sol, quando os seus “concorrentes” estão em circunstâncias que os favorecem e/ou tem uma história de vida que os favorecem. O nome disso não é justiça; é desigualdade, na desigualdade não é possível aplicar mérito.

VEJA MAIS SOBRE MERITOCRACIA:

VÍDEOS

TEXTOS

http://www.revistaforum.com.br/osentendidos/2015/04/11/meritocracia-sucesso-e-outras-balelas/

https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2011/11/25/meritocracia-criticas-e-dificuldades/

https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2011/11/09/meritocracia-uma-introducao/

https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2011/12/17/meritocracia-por-que-justo-o-merito/

https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2012/03/10/garantia-de-competencias-minimas-e-os-efeitos-do-merito/

http://outraspalavras.net/posts/meritocracia-trapaca-e-depressao/

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2015/01/27/o-discurso-da-meritocracia-esconde-o-nosso-passado-mal-resolvido/

http://awebic.com/cultura/se-voce-acha-que-todos-tem-as-mesmas-oportunidades-da-uma-lida-nessa-historia-em-quadrinhos/

http://www.scielo.br/pdf/es/v23n78/a03v2378.pdf

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2 comentários em “Sobre meritocracia

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