A esquerda e o monopólio das virtudes

Existe uma dificuldade em se definir pessoas entre esquerdistas ou direitistas porque no geral elas tem atitudes que remetem a ambas ideologias. Há até quem ache que essa divisão é algo absolutamente superado, e portanto, não se faz mais consonante com a sociedade atual, mas na minha opinião, e para quem se move por um método dialético, é necessário definir os opostos para assim perceber as nuances e movimentos dos seres.

No meu modo de ver o ser inteligente está em qualquer posição política, esquerda ou direita, mas não se extrema a ponto de se tornar arrogante, de se achar o dono da verdade, ele tenta analisar os pontos bons e ruins de ambos os lados, tese e antítese para chegar a uma síntese e ainda sim pede questionamentos sobre a sua conclusão, para se manter em constante aprendizado, assim se reconhecendo como eterno ignorante, pois sabe que o mundo em que vive está em sempre mudando.

Para a compreensão do todo tento uma definição de dois modos como princípios de pensamento, dois pilares, um é o modo onde acredita-se que ser é ter e outro que ter é ser. Partindo da ideia que ser é ter busca-se cada vez ter mais, buscando a ideia de que ter é ser, busca-se se contentar com o que se tem. Se extremados os dois pontos, há de se um ser o ganancioso, o outro miserável. Já se moderadas as visões o primeiro ser apenas é realista e explora e domina o que pode, o outro é idealista e vive em busca de experiências de não dominação. Transferindo estes pontos de vista para a esfera política, o que acredita que ter (poder ou bens) é o que explora e tenta conservar as conquistas é o ser de direita, conservador, que se guia pelos costumes, já o que não gosta da ideia de exploração é aquele, que acredita que a vida é muito mais importante que as posses, é aquele revolucionário, que contesta as tradições, é o ser de esquerda. Não é uma regra que todo ser do princípio de direita aceita a exploração como natural e nem que todo ser de princípio de esquerda não explora e não tem nada. Entre ambas as visões há uma escala gradual enorme, e o que leva um ser a se colocar em um dos dois modos é seu ideal de vida, sua razão, que sim pode se modificar ao longo do tempo.

“Ser livre não é não ter limites, ser livre é poder escolher nos limites qual será o teu raio de caminhada, ou construir outros limites.” (Mario Sergio Cortella)

Acredito eu que como tradição nós, em geral, seja no âmbito da educação escolar ou da educação familiar, aprendemos a conquistar e não a dar valor ao que temos, deste modo temos uma tendência maior a querermos ter do que apenas a querermos ser. Desta forma o capitalismo se torna um sistema que permite a exploração e que ensina, sobre um ideal de meritocracia, que o mais preparado vence — o que nem sempre é uma verdade — e então mostra-se um meio exploratório e sustentável a ideia proposta. Já o sistema que se opõe, o modelo comunista, sendo o socialismo uma etapa de transição para o tal, tenta impor o inverso, que os seres tem que viver de forma mais justa, com a força e o merecimento real de seu trabalho para que assim todos possam viver bem, mas a problematização está na imposição da razão.

O problema é que nós, humanos, nos idolatramos como os seres inteligentes que possuem a razão, mas ao mesmo tempo negamos a mesma vivendo de forma exploratória, voltando a nossa natureza animal, nos movendo pelas formas de poder uns sobre os outros, e desta forma evoluímos lentamente ou mesmo involuímos quando o grande poder se faz na mão de uma minoria.

A solução racional para as relações de poder já estabelecidas é a aceitação da insignificância do eu perante o todo, ou seja, se uma pessoa reconhece sua insignificância e sua responsabilidade ela tende a querer um mundo melhor, se ela se coloca sua significância e responsabilidade muito além das outras ela tende a se tornar um terrorista ou ditador.

“A pessoa que se considera exclusiva os outros para ela não importam, a pessoa que se considera única se importa com os outros únicos e os outros únicos se juntando é que formam o que nós chamamos de vida humana.” (Mario Sergio Cortella)

O progresso está ligado a razão e o monopólio das virtudes está, portanto, ligado à esquerda pois relaciona a palavra progresso a mesma de forma mais efetiva, mais radical, isso não quer dizer que as pessoas de direita não queiram progresso. A direita progressista quer que as coisas mudem mas abominam atos revolucionários, querem as mudanças devagar.

“Esquerda é a não-aceitação do status quo. Ter esperança de que possamos ter um mundo melhor, e a certeza de que podemos aglutinar as pessoas para mudar.” (José Arthur Giannotti)

Atribui-se, a princípio, valor igual a todos os humanos diante da ideologia esquerdista. Já nos valores de direita atribui-se valor a si maior que o dos outros para aí então moldar-se os valores dos outros. Um parte do nós, outro do eu. Um admite em primeira instância uma razão, esta que leva ao pensar coletivo, outro admite o ego como princípio, e em segundo plano se colocam os coletivos. Ambos pensam de forma coletiva, mas o esquerdista coloca as hierarquias maiores primeiro para assim seguir para grupos menores e menores, totalidades diferentes. O direitista a hierarquia do “eu” como primeira, depois coletivos pequenos, e depois maiores até chegar ao todo maior. A esquerda pensa de cima para baixo, a direita de baixo para cima. Daí se adentra a virtude atribuída a esquerda, ela tende a ser mais ética, por tentar achar fórmulas maiores, dar valor a quantidades maiores, busca o bem estar maior, um consenso ético. Sua conceituação é exímia, mas na prática demonstra-se extremamente difícil, utópica, mas uma utopia que trás a partir dos pequenos hábitos grandes mudanças a longo prazo.

A atribuição de valores entre as ideologias parte de pressupostos diferentes: a esquerda parte do princípio altruísta, do todo, a direita parte do princípio egocentrista, a unidade. Claro, volto a dizer, isso não quer dizer que não há altruísmo em ideologias direitistas, nem que as esquerdistas são todas altruístas. Há destruição de ambos os lados, porque mesmo que neguemos, todos nós seres humanos, temos momentos egoístas e altruístas.

“Ser de esquerda tem algumas permanências. Em primeiro lugar, não perder a dimensão da utopia, da possibilidade pela qual se luta por uma sociedade igualitária, solidária e radicalmente democrática. Inclusive, com a socialização dos meios de produzir e de governar. Ser de esquerda é recusar que as idéias hegemônicas no mundo são as neoliberais, que se traduzem pelo caminho único na economia e pela despolitização da política. É não fazer efetivamente o jogo da direita aderindo com sutilezas cada vez menores ao programa neoliberal hegemônico.” (Chico Alencar)

O nós é um conjunto de eus. A esquerda tenta pensar primeiro no nós para depois no eu, enxerga a totalidade humana — e as vezes animal — para depois enxergar a si como todo. A direita tenta pensar primeiro no eu para depois no nós. O planeta é formado de diversas totalidades que vai de todos os ecossistemas, os seres vivos, os seres vivos sencientes, os seres humanos, as nações, os estados, os municípios, os bairros, as vizinhanças, as famílias, as tribos, os casais, até o eu. São vários nós formados por vários eus, um grupo formado por unidades. O eu é insignificante diante do nós, da razão, mas significante diante do seu ego querendo se colocar acima dos outros. Sem coletivos o ser não sobrevive, não é feliz, não vai a lugar algum.

“Não seja possuído por aquilo que você possui.” (Mario Sergio Cortella)

O valor esquerdista do todo tem como base a vida, a qualidade da vida geral, o direitista tem a qualidade da vida de poucos e os outros, infelizmente, não podem ser felizes, quantifica a vida, trabalha com dados, quantifica a vida partindo do eu, com uma minoria poderosa.

“A vida de alguém que é livre é a vida simples, e simplicidade não é miséria e não é carência, simplicidade é a ausência de carência sem alternativa. Uma pessoa simples não é aquela que nada tem, é aquela que tem basta, aí se diz: “mas tem gente que não basta, ele precisa de mais coisas”, então ele já não é livre.” (Mario Sergio Cortella)

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