15 de março de 2015

Comemoração de trinta anos de democracia e o povo exercendo seu direito (e dever) político nas ruas, manifestando suas reivindicações, indignação, e a necessidade de mudança. Tudo certo. Entre os manifestantes, discursos incondizentes, pedidos anti-democráticos, ódio e bandeiras levantadas sem nenhum conhecimento do que querem dizer. Algo errado!

O descompasso começa com aqueles que hoje reclamam de medidas tomadas pelo governo que antes defendiam nas propostas do seu candidato, com aqueles que se cegam pela tamanha credulidade em seu partido, seu protegido, seu lado.

O meu candidato propõe ações impopulares para o crescimento e melhora do país, para o mercado (…) olha só o que a presidente está fazendo! o povo não aceita

O processo continua com o falso maniqueísmo que se supõe (tolamente) na política, o bom e o mal são personificados em figuras representativas e atrelados cada qual para um partido, para o seu e o do outro. A corrupção, então, é tratada como algo simples e criticada pela mesma hipocrisia que nos leva a usarmos de nossos documentos falsificados para sair sábado a noite, que ignoramos ao sonegarmos nossos impostos e darmos nosso jeitinho de conseguir o que queremos. é criticada pela mesma hipocrisia que finge não ter visto nunca antes isso, que critica as ações corruptas e não valoriza a investigação destas mesmas.

CorruPTos, o PT é uma corja, são todos ladrões

A grande jornada de interrogações nisso tudo segue com a naturalidade com que desrespeita-se (todo e qualquer um), afinal, ensinamos nossas crianças a respeitarem, pregamos a paz e o amor, mas quando se trata de política, o ódio ao outro, a falta de alteridade, a banalidade das generalizações, o machismo, são completamente permitidos e confundidos com a liberdade de expressão.

Dilma vaca, Aécio cheirador, odeio o PT, coxinhas de merda

Assim, em meio ao contexto caótico de política-futebol no Brasil, manifestam-se os lados, ou o que quer que sejam. Uns defendem o impeachment, contrariam os que falam em democracia falando que é um processo completamente garantido à população na constituição e não entendem que, em plena celebração da conquista democrática, pedir impeachment é irrazoável, visto que não tem acusações contra a presidente e, como criança mimada que pede melhor de três, a maior parte do país a escolheu para ocupar o cargo que ocupa. Alguns nem mesmo sabem o que é este impedimento que tanto pede, para estes, recomendo a leitura: [link] / [link]

Mas ela iludiu, nem mesmo quem votou nela está feliz com o que ela está fazendo, o governo precisa acordar pro fato de que a população acordou

Se o problema é esse, corramos às ruas colocando em pauta o que realmente deve mudar, todos juntos, petistas ou não, para o bem do POVO e não do seu ego psdbistaextremadireita/ptistaextremaesquerda. Outros defendem a intervenção militar, o golpe, a ordem e o progresso, sem ter consciência de que, se tem a liberdade de estarem nas ruas hoje pedindo por essa opressão, é porque tiveram aqueles que lutaram contra a repressão e sofreram com a tortura, com a perda, com a censura.

Mas naquele tempo tinha ordem, as coisas davam certo, eu conseguia pagar minhas contas e não passava perrengue como hoje

A ilusão do sucesso na ditadura. Até hoje sabe-se muito pouco do que ocorreu de fato e fala-se muito pouco no que ela realmente representou na história do nosso país, a apatia de muitos quanto ao que acontecia naquela época, muito também por conta da censura e da ocorrência por debaixo dos panos das coisas, explica (ou não). Vale a leitura: [link]

Há também os que, de acordo com o que dizem, estão nas ruas para demonstrar descontentamento, para cumprir com sua cidadania e exigir um governo melhor. estes, confusos em seus argumentos, rasos em suas crenças e até mesmo (as vezes) motivados por algo positivo, acabam perdendo-se no meio do caótico cenário, dando voz e número aos que clamam antidemocraticamente por medidas sem escrúpulos e sem entender o seu papel ali. Estes, os a favor da pátria, da democracia, e de um governo melhor, infectados pela doença da política-futebol partidária e pelas incoerências já abordadas aqui antes, não entendem que possa existir melhor maneira de protestar e pedir, de participar, e não entendem que podem defender coisas diferentes do que o paradigma aponta. E poucos, meio a toda essa confusão que já não faz mais tanto sentido e já está longe de ser uma comemoração, entendem que a Dilma, o PT, o Aécio, o PSDB, Luciana e o PSOL e qualquer outras peças desse grande quebra-cabeça, não são quem vai fazer a diferença, e não representam de fato mudança nenhuma.

A mudança que faz somos nós, mudando nós mesmos, nossas atitudes, nossa perspectiva e buscando alternativas verdadeiras. A mudança tem que ser estrutural, no sistema em que vivemos, não importa quem more no Palácio da Alvorada, as coisas não vão mudar. Conjuntura é conjuntura, o que muda é estrutura. Hoje, o ato não me representa! Contra a corrupção, a favor da Petrobrás e do plebiscito, reforma política já!

Por mais conversas embasadas, respeitosas e conscientes, por mais reflexão, por mais união, atenciosamente, elite branca esquerdopata, esquerda caviar, ou que quer que quiserem me chamar, mas sempre consciente de meu papel como privilegiada e do que devo fazer com ele para que, com o tempo, meus privilégios se tornem direitos de todos (eu não votei, mas a culpa é minha também).


Clara Coutinho. 15 de março de 2015. Postagem no Facebook, 15 mar. 2015. [link]

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