Treta da Semana: Feminismo x Veganismo

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— — — Dica pra vida: Antes de criticar termine de ler :) — — —  

Após o acidente com carga de porcos, em São Paulo, ativistas dos direitos animais conseguiram resgatar alguns porcos que iriam ser abatidos e vão viver em um santuário, em seguida se mobilizaram para arrecadar dinheiro para custear as despesas com o trato dos animais que podem passar de 22 mil reais mensais. O processo de coleta do dinheiro foi feito pelo maior site sobre veganismo do país (e um dos maiores do mundo), Vista-se, utilizando-se do site Vakinha.

Até aí tudo nos conformes, a coleta colaborativa teve êxito chegando próximo ao objetivo, mas em dado momento um post polêmico bombou em grupos veganos e feministas no facebook comparando o caso dos ‘porcos do rodoanel’ ao caso ‘vamos dar as mãos a Gisele’ cujo o objetivo de arrecadação é bem inferior no site de coleta. Observe a imagem abaixo:

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A comparação das causas foi feita, e temos que concordar que ambas são causas contra opressão: ambos os citados estão na condição de oprimidos, as mulheres por conta do sexismo e os animais por conta do especismo. Agora, vale lembrar que a doação requerida à esquerda é feita para diversos animais e a da direita é para um indivíduo humano, por isso os valores são bem diferentes.

Ué, então o que desencadeou a polêmica?

A polêmica foi desencadeada por conta da falta de simetria no discurso adotado (faltou medir as palavras, ‘parsa’). A ideia que insinuavam nos grupos de que animais não-humanos socialmente valem mais que mulheres é facilmente refutável visto que em questão de direitos as mulheres, por serem humanas, estão anos luz de qualquer outra espécie. Inegavelmente pela condição de objetos os animais sofrem muito mais que os humanos, são mortos mais de 60 bilhões de animais por ano e em vias institucionais eles só são protegidos por interesse dos próprios humanos, não sendo considerados sujeitos de direito, ou seja, sua individualidade é completamente ignorada aos olhos da lei.

Tentando se justificar nos comentários a autora do post aqui exibido, mesmo ele rodando de diversas formas com a mesma mensagem, acabou por dizer:

“A causa animal, mesmo com sua pouca visibilidade parece mobilizar e gerar muito mais choque e incômodo nas classes média e alta na sociedade do que a urgência de causas relacionadas ao grupos de minoria.”

Ponto para os defensores animais, que se organizam melhor (ao menos neste caso isolado, porque em muitos outros não obtém “sucesso”, o que daria outra discussão). Talvez isso queira dizer que estão fazendo certo sua mobilização, mas de qualquer forma derrota pra sociedade que insiste em comparar conflitar causas que lutam a favor do princípio da igualdade e da igual consideração.

Outro ponto interessante é em relação à colocar humanos em primeiro lugar, que por si só já é um ato de especismo. Como disse Peter Singer:

“Entre os fatores que dificultam o despontar da preocupação pública relativamente aos animais, talvez o mais difícil de ultrapassar seja o pressuposto de que “os seres humanos vêm em primeiro lugar” e que qualquer problema relativo a animais não pode ser comparado, enquanto questão moral ou política grave, com os problemas dos seres humanos. Pode dizer-se muita coisa sobre este pressuposto. Em primeiro lugar, ele constitui, em si mesmo, um indicador de especismo. Como pode alguém que não efetuou uma análise séria da questão saber que o problema é menos grave do que os problemas do sofrimento humano? Só se pode afirmar que se sabe isto se se supuser que os animais não interessam verdadeiramente e portanto, por muito que eles sofram, o seu sofrimento é menos importante do que o sofrimento de um ser humano. Mas dor é dor, e a importância de evitar a inflicção de dor desnecessária não diminui só porque o ser que sofre não pertence à nossa espécie. […] É verdade que há muitos problemas no mundo que merecem o nosso tempo e a nossa energia. A fome e a pobreza, o racismo, a guerra e a ameaça nuclear, o sexismo, o desemprego, a preservação do nosso ambiente frágil — todos estes são problemas graves, e quem pode dizer qual é o mais grave? No entanto, se nos libertarmos das tendências especistas, conseguiremos ver que a opressão dos não humanos pelos humanos se situa algures no meio destas questões. O sofrimento que infligimos aos seres não humanos pode ser extremo e os números envolvidos são gigantescos: mais de l00 milhões de porcos, vacas e ovelhas sofrem anualmente o processo descrito no capítulo 3, apenas nos Estados Unidos; o mesmo se aplica a milhares de milhões de galinhas; e, anualmente, pelo menos 25 milhões de animais são utilizados emexperiências. […] A utilização de milhões de animais para este fim deveria originar pelo menos igual reação, especialmente uma vez que este sofrimento é desnecessário e poderia ser facilmente cessado, se assim o desejássemos. A maioria das pessoas rensejoáveis pretende evitar a guerra, a desigualdade entre as raças, a pobreza e o desemprego; o problema é que se tem tentado evitar tudo isto desde há muito tempo e, agora, temos de admitir que, em grande medida, não sabemos como fazê-lo. Comparativamente, a redução do sofrimento dos animais às mãos dos humanos seria relativamente fácil de conseguir, se os humanos estivessem determinados a isso. De qualquer modo, a idéia de que “os humanos vêm em primeiro lugar” constitui geralmente um pretexto para não se fazer nada quer em relação aos animais não humanos quer em relação aos próprios animais humanos, não se impondo como verdadeira escolha entre altemativas incompatíveis. A verdade é que não existe qualquer incompatibilidade nesta questão. É certo que todos temos uma quantidade limitada de tempo e energia, e o tempo ocupado em trabalho ativo a favor de uma causa reduz o tempo que se pode dedicar a outra, mas nada impede que aqueles que dedicam o seu tempo e a sua energia aos problemas humanos adiram ao boicote aos produtos da crueldade praticada pela indústria da criação de animais. Ser vegetariano não ocupa mais tempo do que comer carne de animais.”

É obvio que a maioria das sociedades ainda é especista e omissa aos direitos animais, e por este motivo a causa de libertação animal é bem menos desenvolvida, bem menos vista e bem menos aceita que a causa de libertação das mulheres (que começou bem antes), inclusive é fácil afirmar que a maioria das pessoas, das mulheres e das feministas são especistas. Isso ocorre porque os animais não-humanos precisam de alguém para defendê-los pois estão completamente dominados pelos humanos com todo o aparato especista e por isso é uma causa mais difícil de ser compreendida e desconstruída. O especismo está mais enraizado que o sexismo machista.

Qualquer pessoa que tenha lido algo sobre direitos animais sabe que a comparação é assimétrica, e que conflitar causas pode ser algo irresponsável, mas é compreensível porque a deslegitimação da outra causa é feita geralmente por ignorância. Em alguns casos oportunistas tentam ganhar visibilidade gerando polêmicas, a la programas policiais (sim, o Datena aplaudiria essa performance). Conflitos desnecessários podem acabar atrapalhando ambas as causas, visto que as pessoas são emotivas e podem acabar tendo uma reação negativa ficando, de forma infantil, contrária as outras causas.

Mesmo que a crítica tenha sido mostrar o quão a mulher é invisível na sociedade ela falhou por ser mal construída e ao invés de ajudar acabou atrapalhando (pode até ter ajudado a Gisele mas com certeza gerou rage entre os ativistas).

Agora vamos aos tópicos da lição de hoje:

  • Comparar o buzz das duas campanhas de arrecadação não é justo (porque a forma que atingem o público são diferentes e dependem de milhões de variáveis)
  • Comparar a quantidade pedida não é justo (porque as necessidades são diferentes e consequentemente os valores também)
  • Deslegitimar uma das duas causas não é justo (porque ambas são boas causas)
  • Discursos tortos podem criar tretas desnecessárias (mulher não vale menos que “bicho” nem aqui nem na China)
  • Feminismo & Veganismo é mais coerente que só um dos dois

Menos treta, mais amor

Pratiquemos o deboísmo e tentemos desfazer tretas de forma pacífica e tenhamos coerência, que sejamos cada dia mais a favor da igualdade, os humanos e os animais não-humanos agradecem (sim, doe para as duas vaquinhas se quer ajudar de verdade, e claro para muitas outras que vierem).

Estamos de olho em quem quer liberdade, respeito e dignidade apenas para humanos. Não seja assim:

direitos

Fica a reflexão:

Uma feminista vegana pode geralmente não acha errada a comparação da exploração humana com a exploração animal, pois já começou a desconstruir ambas opressões, já uma feminista não vegana acha um absurdo e pode ser irritar facilmente por ter a ideia de superioridade ao animal arraigada.


Não interpretem errado, eu não estou querendo dizer que o feminismo é errado ou desmerecer a causa, ela é ótima, só escrevi este texto tentando apontar a falha discursiva que foi feita e a treta desnecessária, acho que discursos tortos e desonestidade intelectual não devem ser usados. E antes que alguém venha me atacar com uma teoria conspiratória dizendo que esse é um texto machista disfarçado que saibam: eu sou a favor de todas as libertações, e me empenho a desconstrui-las dia a dia. Pela lógica, quem se move pelos direitos animais deve ser também contra as opressões entre espécies, já que os humanos são também animais. Como disse o filósofo Peter Singer:

“A libertação animal é também a libertação humana.”

Ou seja, se um vegano se dispõe a ser opressor ele acaba por cair em contradição, o que não é raro quando estamos em papel invertido, pois a pessoa que apenas luta pelos direitos humanos e não se importa com direitos animais ainda sim se coloca na posição de opressor.

Em seu livro Libertação Animal, Peter Singer ainda nos mostra uma curiosidade:

“Frequentemente, diz-se como corolário da ideia de que “os humanos vêm em primeiro lugar” que as pessoas do movimento em prol do bem-estar animal preocupam-se mais com os animais do que com os seres humanos. É verdade que isto se aplica a algumas pessoas. Historicamente, no entanto, os líderes do movimento para o bem-estar dos animais preocuparam-se muito mais com os seres humanos do que os outros humanos que não se preocuparam nada com os animais. Efétivamente, é enorme a coincidência que existe entre líderes de movimentos contra a opressão dos negros e das mulheres e os líderes dos movimentos contra a crueldade para com os animais; esta coincidência é tão grande que fomece um forma inesperada de confirmação do paralelismo que existe entre racismo, sexismo e especismo. Entre o punhado de membros fundadores da RSPCA, por exemplo, encontram-se William Wilberforce e Fowell Buxton, dois dos líderes da luta contra a escravatura negra no império britânico. 8 Quanto às primeiras feministas, Mary Wollstonecraft escreveu, para além da obra Vindication of the Rights of Women, uma coleção de histórias infantis intitulada Original Stories, especialmente pensada para incentivar a prática de atos compassivos para com os animais; 9 e várias das primeiras feministas americanas, incluindo Lucy Stone, Amelia Bl00mer, Susan B. Anthony e Elizabeth Cady Stanton, estiveram ligadas ao movimento vegetariano. Chegaram a encontrar-se com Horace Greeley, editor reformista e antiesclavagista de The Tribune, para fazer um brinde a “Direitos das Mulheres e Vegetarianismo”.”


Fica a dica da palestra da filosofa e especialista em direitos animais Sônia T. Felipe, onde ela em dado momento fala algo que agrega a essa discussão, dos17:10 aos 23:25.

“Os três movimentos de um projeto revolucionário na moralidade ou na política, segundo sistematizou William James (1842–1910), para chegar a ser disseminado e compartilhado na sociedade, sofre três momentos ou três impactos: o primeiro, o da hostilidade. Nesse momento a teoria é atacada e julgada absurda. No segundo, o da polêmica. Um número significativo de pessoas o adota. O ideal é tido então como verdadeiro, mas aqueles que foram seus detratores no início afirmam que é algo trivial, isso é, algo tão óbvio que não merece tanto barulho por nada. O terceiro momento ou impacto, o ideal sofre uma aceitação generalizada. A maioria das pessoas entendem seu significado e procura revisar seus valores e suas forma de vida a partir deles. Nesse momento, via de regra, os detratores se apresentam como pioneiros, como propulsores dessa idéia que inicialmente eles hostilizaram e ridicularizaram.

Falar do dever de sermos éticos com animais e ecosistemas ainda parece fora de propósito, mas eu arrisco dizer que já estamos na fase dois, a da polêmica. Geralmente a polêmica vem na forma de uma crítica aos defensores dos animais. Eles são acusados de gastarem energia defendendo animais quando “poderiam aproveitar essa energia toda para defender os humanos”. Eu fui dos direitos humanos e sempre, nos auditórios, ouvia esta crítica. Eles não sabiam que eu era dos direitos humanos. Eles diziam: por que você não usa essa energia toda para defender humanos. Eu dizia: Você está na defesa dos direitos humanos? Nunca vi você por lá. Você não faz nada, nem por humanos nem pelos animais e vem me dizer o que eu devo fazer? Então? Por que começar defendendo animais e plantas? Se há tanto sofrimento humano para ser eliminado. Então, esta questão que é imposta, ela faz sentido. Vou tentar explicar porque. Por mais de 2 mil anos se pregou que, antes de nos tornarmos éticos para com os animais deveríamos aprender a ser éticos para com os humanos. Nestes mais de 2 mil anos não nos tornamos mais éticos para com os humanos e o que aconteceu foi que pioramos nossa forma de considerar a vida de animais e de plantas. O modelo moral que nos leva a ser anti-éticos para com os animais é o mesmo que nos leva a ser anti-éticos para com os humanos e o restante da natureza. Por isso, é preciso limitar a liberdade humana fazendo o percurso inverso dessa tradição moral, isto é, começando da borda da moralidade para o epicentro da moralidade. O contrário nos deixou muito confortáveis e degenerou nossa mente tornando-a quase incapaz de considerar objetos sujeitados à nossa moralidade a partir de uma perspectiva mais ampla. Enquanto ficamos buscando apenas melhorar a vida dos humanos usando métodos dolorosos de exploração de animais, mantemos em nossa mente o conceito de que podemos lidar desse modo com a vida deles, desses “outros”. Humanos em condições vulneráveis, no entanto, são como os animais. Podem sofrer o que fazemos a eles e não podem se defender do nosso poder de lhes fazer mal. Esse padrão nos leva a nunca abolir a matriz moral que nos autoriza a destratar humanos, pois está viva em nossa mente a matriz moral que nos autoriza a maltratar animais. Fazemos a eles o que fazemos aos nossos semelhantes. Animais são nossos semelhantes. Sentem dor, medo, adoram estar em paz, conviver com seus pares, buscar e escolher seu provimento, procriar e cuidar da prole, e assim por diante. Estamos mentalmente formatados na lógica da dominação. Num primeiro momento julgamos que na natureza há seres superiores e inferiores. No segundo, nos colocamos sempre na posição superior, seja por medo de ficar vulnerável, seja por cobiçar vantagens e privilégios. Em um terceiro momento abusamos dos seres vivos que não podem subir na hierarquia que construímos para garantir os privilégios para a nossa espécie. Daí pra frente, passamos a fazer qualquer coisa sem o menor escrúpulo contra qualquer animal como meio de expropriar dele o que julgamos não ter valor nenhum para ele. É preciso abolir esta lógica da dominação na qual fomos formatados. Assim como não fomos feitos para servir a propósitos alheios, também as outras vidas não foram feitas para isso. Por mais que nos custe crer e acreditar, a verdade é que cada vida tem em si a finalidade própria dela. Tratamos o animal de um modo que não admitimos que nos tratem. Tiramos dele o que tem de mais precioso: sua vida. Alegando que ele nem tem noção disso. Muitos humanos também não têm noção alguma do valor de suas vidas. E nem por isso os exploramos e matamos. Pelo contrário, quando um humano não tem noção nenhuma do valor que tem a vida dele, nós o protegemos.”


Outra dica é o texto de uma coleguinha feminista:

Vamos falar sobre o caso dos porcos do rodoanel?

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