Paris X Minas: Não é pra ser um duelo

relativismo_internet_por_odyr

Quem acessou as redes sociais no dia, 14/11/2015, viu em sua timelinepessoas se solidarizando com os ataques terroristas ocorridos na França. O site Facebook — diga-se maior rede social do mundo — , fez um ação facilitando que se coloque a bandeira do país na foto do perfil, assim como tem feito nos últimos meses, em causas que considera importantes. Até aí nada demais, as pessoas estão livres para se manifestarem quanto ao que quiserem, se solidarizarem com o que quiserem, e assim o fizeram.

A questão da empatia e da hostilização patriótica

Eis que surge a crítica generalizada relacionando isto a tragédia ocorrida aqui no Brasil:

“Você colocou a foto do perfil da França, mas e o Brasil? E o desastre que ocorreu em Minas Gerais?”

Isso configura uma falácia de falsa dicotomia, vejamos o que significa:

Falsa dicotomia, falso dilema, pensamento preto e branco ou falsa bifurcação é uma falácia lógica que descreve uma situação em que dois pontos de vista alternativos, geralmente opostos, são colocados como sendo as únicas opções, quando na realidade existem outras opções que não foram consideradas. (retirado da wikipedia)

As pessoas que tecem tal crítica podem estar pensando de forma relativista, colocando dois pólos, fazendo parecer que quem está com a foto da França não se importa com o Brasil, e isto não se configura uma verdade, não antes de sabermos o que tal indivíduo pensa de fato, portanto, pensar desta forma estereotipada é falta de senso crítico. Quando alguém faz um post ou coloca a foto no perfil da tragédia que for, seja sobre a França, sobre o Brasil, ou sobre outro país, não necessariamente quer dizer que ela não se importa com outras tragédias.

O erro está aí, quando há um menosprezo ao outro comparando as tragédias, numa espécie de nacionalismo hostil, isto não resolve problemas.

A questão da manipulação da mídia

Agora um ponto também importante é pensarmos o quanto a mídia é parcial e dita massivamente o que tem mais valor. A mídia tem o poder de causar comoções seletivas para desviar o foco de questões que não são de seu interesse. Não que o facebook tenha feito isso intencionalmente, mas é importante estarmos atentos para que não defendamos apenas coisas distantes e esqueçamos do que está próximo a nós. Em analogia é como se nos preocupássemos demais com a saúde dos outros e não ligássemos para a nossa, isso geraria um problema. Nós e os outros, ambos somos importantes.

As pessoas são influenciadas o tempo todo, podem pensar de forma a considerar todo um povo, também de forma generalizada e estereotipada, como mais qualitativo. Vale lembrar que a culpa não é só da mídia, não é exclusividade dela ditar valores, qualquer coisa que envolva nosso aprendizado em relação a ideais e ideologias egoístas terá responsabilidade sobre isso, sobre nos fazer agir assim sem compaixão, inclusive nós mesmos temos grande culpa se o fazemos. Eis que estaremos mais longe da empatia e da igualdade sob tais dogmas e eles provém de diversas fontes. Neste ponto o imperialismo e muitas outras ideias absolutistas são uma péssima influencia, pois nos tornam piores pessoas em relação aos outros, e são portanto a base para valorações desiguais. Claro, é também falta de senso crítico se importar apenas com uma tragédia, só com um país, respeitar só pessoas do esteriótipo que se gosta, é falta de senso crítico e moral pensar só em si mesmo. A empatia está diretamente ligada com a expansão de tais sensos.

Adendo

A mídia pode ser negativa. Qualquer grupo pode. A base está nos ideais que eles proferem. Polarizar tragédias não é muito coerente. Precisamos ter critérios relevantes para a consideração da dor e não apenas atribuir valor a esteriótipos, para tal é necessário um senso crítico apurado, e obviamente, empatia é fundamental.

É incoerente defender valorizações relativistas, quando a questão são direitos básicos, indivíduos daqui não tem mais valor que indivíduos de outro lugar, nem de outro lugar tem mais valor que os indivíduos daqui. Se uma pessoa pensa que lá é melhor que aqui ela está atribuindo mais valor aos povos de lá, se pensa que aqui é melhor que lá está atribuindo mais valor que aqui. Isso ignora um critério universalista onde todos são indivíduos. Relativiza a tragédia. Tragédia é tragédia, dor é dor.

Podemos perceber que o mundo precisa de solidariedade todos os dias e em todos os lugares, tragédias não são só aquelas que matam só mais de uma pessoa e o lugar não importa quando estamos falando de dor. Neste sentido, precisamos ser menos relativistas e mais cosmopolitas.

Não posso negar também que de forma estrutural cabe ao governo de lá resolver os problemas de lá e ao governo daqui resolver os problemas daqui. Mas podemos acompanhar e pressionar as autoridades de ambos. Toda pessoa pode, e deveria, ajudar ambos, na medida do possível. Podemos ao mesmo tempo prestar solidariedade pra lá (ou pra qualquer outro lugar) e pressionar as autoridades daqui.

Opiniões importantes para a construção desse texto

Achei relevante relatar alguns pontos de vista que agregaram a este texto. Inicialmente quis mostrar que as causas não são conflitantes, o relativismo feito dentro de movimentos sociais é bastante comum, e pode acabar prejudicando ambos movimentos, mas neste caso a crítica é focada mesmo a ideais imperialista e a manipulação da mídia.

Após alguns debates passei a entender melhor a crítica quanto a comoção sobre a França, que é o poder da mídia em tirar o foco do problema para que o esqueçamos, seja isso intencional (por interesses econômicos) ou sem intenção (o que é raro, pois empresas visam o lucro). O que se critica neste aspecto é a imparcialidade da mídia, se ela relata muitas tragédias dos países desenvolvidos e os outros deixa a mercê, ela não equivale as tragédias, o que como ideal é algo pífio, aí entraremos na discussão dos interesses econômicos das mídias, e chegaremos ao status quo corporativo. Mas para entendermos isso de fato, melhor lermos Chomsky.

Cibeli Pondé:

A questão não é se solidarizar e sim deixar de se solidarizar.

Amanda Nóbrega:

Não podemos deixar algo externo sobrepor algo interno, assim esqueceremos nosso problema deixando-o de lado.

Talia Cardoso:

Não adianta nada eu me posicionar com os problemas do outro lado do mundo e não saber o que tá acontecendo na cidade vizinha. Esse é meu ponto. Ser solidário de longe é fácil.

Raquel das Flores:

A questão aqui não é com o que você “quer” ou “escolhe” se comover. Dentro do capital e no ponto que a gente chegou, infelizmente, esse tipo de acontecimento é o que menos surpreende. O que a gente ta falando aqui é de política.
Por que a mídia adota uma tragédia internacional pra ficar falando sobre ela de modo massante e faz questão de ignorar uma nacional, que não tem nada a ver com fanatismo religioso, mas que igualmente destrói a vida humana bem debaixo do nosso nariz? […] E muito menos se trata de patriotismo, esse eu quero que se foda. Toda essa revolta com uma suposta comoção internacional vem de uma revolta mais profunda, que mata, desaloja, fere e exclui todo dia.

A história se repete

Os ataques à França desencadearam um contra-ataque ao Estado Islâmico que declarou a autoria dos atentados. Na história recente tivemos, da mesma forma, um contra-ataque dos Estados Unidos a Al Qaeda em resposta ao ataque feito as Torres Gêmeas. Os países imperialistas, proclamam a responsabilidade por disseminar a paz no mundo, e para a Guerra ao Terror ser aceita pela população é necessário o apoio da grande mídia. A mídia tem o papel de fazer coberturas entregar uma pronta análise dos fatos, por ser uma fonte de informação massiva é fundamental para a construção de opiniões sobre a política interna e externa, neste sentido é necessário coletar informação de diversas fontes pois os grandes canais podem a escrever a história de forma seletiva defendendo seus interesses, eles não são livres de ideais, são feitos por pessoas.


Leitura recomendada:

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