Esclarecimento

Eu não acredito em salvadores. Nem nos mortos, nem nos vivos. Na verdade nenhum de nós precisa de um messias, não existe alguém que nos livrará do egoísmo senão a nós mesmos. Admirar outros pensadores e suas ações é um exercício saudável, mas cegar-se diante discursos irracionais não. Servir a alguém, defendê-lo até mesmo quando este alguém cai em contradição, não é algo muito inteligente a se fazer, é preciso refletir e criticar para encontrar coerência, é preciso esclarecer informações, requerer a lógica e os fatos, fugir do analfabetismo científico e da moral egoísta individualista, se abandonarmos tais coisas passamos a ser servos conformados e não mais críticos. Precisamos ser autônomos, emancipados, esclarecidos, guiar-nos pela razão. A burrice anda lado a lado com a ignorância, já a ciência e a ética devem sempre progredir.

“Esclarecimento (Aufklärung) significa a saída do homem de sua minoridade, pela qual ele próprio é responsável. A minoridade é a incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem a tutela de um outro. É a si próprio que se deve atribuir essa minoridade, uma vez que ela não resulta da falta de entendimento, mas da falta de resolução e de coragem necessárias para utilizar seu entendimento sem a tutela de outro. Ousa saber! Tenha a coragem de te servir de teu próprio entendimento, tal é portanto a divisa do Esclarecimento.

A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma parte tão grande dos homens, libertos há muito pela natureza de toda tutela alheia (naturaliter majorennes), comprazem-se em permanecer por toda sua vida menores; e é por isso que é tão fácil a outros instituírem-se seus tutores. É tão cômodo ser menor. Se possuo um livro que possui entendimento por mim, um diretor espiritual que possui consciência em meu lugar, um médico que decida acerca de meu regime, etc., não preciso eu mesmo esforçar-me. Não sou obrigado a refletir, se é suficiente pagar; outros se encarregarão por mim da aborrecida tarefa. Que a maior parte da humanidade (e especialmente todo o belo sexo) considere o passo a dar para ter acesso à maioridade como sendo não só penoso, como ainda perigoso, é ao que se aplicam esses tutores que tiveram a extrema bondade de encarregar-se de sua direção. Após ter começado a emburrecer seus animais domésticos e cuidadosamente impedir que essas criaturas tranqüilas sejam autorizadas a arriscar o menor passo sem o andador que as sustenta, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça se tentam andar sozinhas. Ora, esse perigo não é tão grande assim, pois após algumas quedas elas acabariam aprendendo a andar; mas um exemplo desse tipo intimida e dissuade usualmente toda tentativa ulterior.

É portanto difícil para todo homem tomado individualmente livrar-se dessa minoridade que se tornou uma espécie de segunda natureza. Ele se apegou a ela, e é então realmente incapaz de se servir de seu entendimento, pois não deixam que ele o experimente jamais. Preceitos e fórmulas, esses instrumentos mecânicos destinados ao uso racional, ou antes ao mau uso de seus dons naturais, são os entraves desses estado de minoridade que se perpetua. Quem o rejeitasse, no entanto, não efetuaria mais do que um salto incerto por cima do fosso mais estreito que seja, pois ele não tem o hábito de uma tal liberdade de movimento. Assim, são poucos os que conseguiram, pelo exercitar de seu próprio espírito, libertar-se dessa minoridade tendo ao mesmo tempo um andar seguro.

Que um público, porém, esclareça-se a si mesmo, é ainda assim possível; é até, se lhe deixarem a liberdade, praticamente inevitável. Pois então sempre se encontrarão alguns homens pensando por si mesmos, incluindo os tutores oficiais da grande maioria, que, após terem eles mesmos rejeitado o jugo da minoridade, difundirão o espírito de uma apreciação razoável de seu próprio valor e a vocação de cada homem de pensar por si mesmo. O que há de especial nesse caso é que o público, que outrora eles haviam submetido, os forçará então a permanecer nesse estado, por pouco que eles sejam pressionados pelas iniciativas de alguns de seus tutores totalmente inaptos ao Esclarecimento. O que prova a que ponto é nocivo inculcar preconceitos, pois eles acabam vingando-se de seus autores ou dos predecessores destes. É por esse motivo que um público só pode aceder lentamente ao Esclarecimento. Uma revolução poderá talvez causar a queda do despotismo pessoal ou de uma opressão cúpida e ambiciosa, mas não estará jamais na origem de uma verdadeira reforma da maneira de pensar; novos preconceitos servirão, assim como os antigos, de rédeas ao maior número, incapaz de refletir.

Esse Esclarecimento não exige todavia nada mais do que a liberdade; e mesmo a mais inofensiva de todas as liberdades, isto é, a de fazer um uso público de sua razão em todos os domínios. Mas ouço clamar de todas as partes: não raciocinai! O oficial diz: não raciocinai, mas fazei o exercício! O conselheiro de finanças: não raciocinai, mas pagai! O padre: não raciocinai, mas crede! (Só existe um senhor no mundo que diz: raciocinai o quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei!). Em toda parte só se vê limitação da liberdade. Mas que limitação constitui obstáculo ao Esclarecimento, e qual não constitui ou lhe é mesmo favorável? Respondo: o uso público de nossa razão deve a todo momento ser livre, e somente ele pode difundir o Esclarecimento entre os homens; o uso privado da razão, por sua vez, deve com bastante freqüência ser estreitamente limitado, sem que isso constitua um entrave particular o progresso do Esclarecimento.”¹

obs.: Kant vai mostrar que as ações humanas não se promovem apenas segundo fins particulares. Um outro modo de se comportar conforme fins é previsto, cujas ações têm repercussão desde as primeiras interações sociais, passando dos pequenos aos grandes grupos, por sociedades inteiras ao domínio da própria espécie humana. A atuação de cada indivíduo, ainda que este não se dê conta, contribui para o desenvolvimento da espécie humana, pois essas ações se arranjam na figura de um progressivo desenvolvimento ordenado pelo que Kant chama de leis naturais. Esse lento processo só ao longo de muito tempo pode ser observado, tempo superior ao período de uma vida. Assim, o saldo desse processo só poderá ser observado através de muitas gerações, donde se concluí que somente através da história torna-se nítido o fio condutor que mostra o encadeamento dessas estruturas. A inferência possível por meio destes movimentos é que apenas por meio de uma abordagem histórica podemos descobrir os propósitos da natureza.

Vê-se, assim, o homem tendo sua liberdade limitada por artifícios. Isso faz a política, que, na forma de um Estado instituído, com seu aparato jurídico-político, e na sua ação reguladora sobre a sociedade civil, pela força de suas instituições, normas e convenções sociais. Restringido por estes, é nesse terreno que se processa o uso esclarecido da razão, uso que permite a liberdade dos indivíduos raciocinarem sobre o que quiserem, mas que resguarda as obrigações públicas destes indivíduos (Paton, 1948).

O esclarecimento, como o que se dá publicamente, não é, portanto, a insurgência contra a autoridade instituída (num ato arbitrário que quer dar vazão a todos os anseios particulares); tampouco a obediência cega, servil e inquestionável. O fazer bom uso público da razão significa agir em conformidade com as circunstâncias e poder refletir criticamente sobre elas. Na avaliação de Foucault, é o gesto esclarecido que conjuga condições espirituais e institucionais; éticas e políticas; respectivamente, o privado e o público (Foucault, 1994).²


¹ Immanuel Kant, Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento?, Königsberg, Prússia, 5 de Dezembro de 1784. Tradução por Luiz Paulo Rouanet

² Dos usos público e privado da razão segundo Imannuel Kant por Roberto Kahlmeyer Mertens, Passages de Paris 7 [link] 

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