Capitalismo ou socialismo?

Via de regra essa pergunta é feita em debates políticos, pois são considerados pólos ideológicos divergentes. Todavia essa pergunta como meras opções de múltipla escolha é simplista pois não considera respostas mais elaboradas, ignorando as diversas vertentes que há nessas ideologias. Eu, como evito falsas-dicotomias tendo a dizer algo mais elaborado. Não tenho dúvida que há indivíduos capitalistas e indivíduos socialistas com discursos a favor da liberdade – uma palavra polissêmica – para todos, ambos tem perspectivas diferentes de atingir tal ideia, assim como existem também pessoas nos dois ‘grupos’ que são ou se tornam autoritários, pois simplesmente não conseguem ver o mundo na forma do outro e declara-se daí uma guerra. Dessa declaração de combate ao outro e não as ideias do outro pelo diálogo, permite-se o uso da força como uma solução violenta de extermínio. Por conta disto, historicamente houve – e ainda há – totalitarismo em movimentos ditos de esquerda ou de direita, e estes se fazem do extremismo. Para evitar isto devemos saber que não precisamos tolerar ideias, mas precisamos respeitar pessoas – mas há exceções nisto também, pois medidas extremas de violação de direitos requerem soluções extremas.

Na teoria ambos sistemas podem ser belos (e suas propostas românticas demais colocam de um lado aqueles que acreditam que o mercado pode solucionar os problemas sociais sem intervenções estatais, no outro aqueles que acreditam que quanto mais controle estatal mais se pode buscar a igualdade), mas a forma instrumentalista e utilitarista da qual esses sistemas na prática mostraram-se, como sistemas que oprimem algumas classes e privilegia outras, faz com que não possamos considerá-los assim. A experiência socialista de Lenin, por exemplo, foi devastadora no que se diz sobre a humanidade, elevou o nível econômico do país, mas deixou milhões de mortos com sua máquina estatal autoritária. Já no sistema capitalista pode-se dizer que grandes empresas exploram uma mão de obra barata, até semi-escrava, muitas vezes de outros países, para poder continuar ter lucros imensos quando isto não pode ser considerado necessário, isso quando não são rentistas, fazem dinheiro endividando outros sem produzir, outra coisa que pode-se dizer injusta.

Podemos ir além e perceber que o problema não está nos sistemas e sim no nosso comportamento, pois os humanos são anteriores aos sistemas que criam e nomeiam. É normal nos comportarmos de forma a nos privilegiar rebaixando os outros, quando vemos uma oportunidade tentamos nos beneficiar sem fazer esforço, lucrar sem produzir, e nisto se estabelece nossa desumanidade, porque na prática outro acaba virando nosso servo, assim os sistemas que até agora conhecemos em escala macro, sejam quais forem eles, fracassaram eticamente, pois sendo parasitas não há uma justa cooperação, que seria a chave para o sucesso econômico e social, ainda mais quando uma maioria trabalha recebendo pouco para sustentar os privilégios de uma minoria, uma falha que acontece tanto no Estado quanto no mercado.

Claro, acusar um sistema como errado no fundo é fruto da nossa ideologia, pois o errado são nossos hábitos que sustentam e mantém estes sistemas. Se a maioria das pessoas visassem o bem comum e fosse naturalmente cooperativistas pela simples lógica do benefício que isto traz, e não pela vontade de terem e acumularem poder, o Estado não seria necessário e o mercado não seria concentrador de riquezas. Sendo os sistemas feito por pessoas, qualquer um deles poderia ser mais justo, não totalmente, mas ao menos proporcionar uma condição razoável de vida a todos os indivíduos, seja no capitalismo ou no socialismo – ainda que o socialismo seja teoricamente mais coerente pelo explícito comunitarismo como antítese ao capitalismo, mas ingênuo demais por acreditar que os humanos conseguiriam ser todos racionais e cooperativistas, assim como eu as vezes também me encontro, nos devaneios intelectuais idealistas – no entanto eles não podemos dizer que chegaremos lá com a concentração de poder absurda que vimos até agora.

Enxergando uma sociedade justa não deveríamos ser anarquistas em alguma de suas vertentes? No plano ideológico como fim sim, mas o sistema estabelecido não dá nenhuma chance para aplicação prática disto, nós simplesmente vivemos numa sociedade capitalista, sabendo disso não há como fugir da realidade – senão por microsociedades – logo, deve-se lutar nas ideologias mais aptas para as transformações necessárias para atingir tal ideia, e atualmente pode-se dizer que o debate mais aplicável e realista gira em torno da social-democracia e do liberalismo social.

Capitalismo, socialismo, anarquismo ou outro? Ainda que eu possa ser rotulado – ou me rotule por vezes – em alguma dessas ideologias, eu não me defino totalmente por elas, pois sou o que procura achar melhor em cada sistema, com ideias isoladas e não com pacotes completos de ideias, e além disso, considero que minhas ideias possam ser transformadas visando caminhos melhores, socialmente falando, então acho mais plausível me chamar de progressista moral, eticista ou qualquer coisa objetivista relacionada ao comportamento humano visando o bem comum e não me definir pelos sistemas econômicos, estes que para mim tem que ser sustentáveis – e isto não é ser neutro.

  • Devemos lembrar que, na prática, vertentes do capitalismo e do socialismo tiveram – e ainda tem – em comum o autoritarismo e a servidão.
  • Para uma bom sistema é preciso sempre que não se coloque interesses privados acima dos interesses públicos.
  • O debate de ideias é importante, a violação de direitos fundamentais é execrável.
  • O estado numa sociedade capitalista, apesar de limitar o mercado, reproduz o sistema, ou seja, é uma ferramenta que ao invés de diminuir a desigualdade pode assegurá-la. Diante das crises cíclicas que estes sistemas criam sempre surge alguém, com discursos prontos, nacionalistas, etnocêntricos e com um inimigo na manga (extremistas, tanto de esquerda quanto de direita), com propostas de solucioná-las.
  • É praticamente impossível que haja a abolição do estado ou do mercado até por que pode-se definir uniões sociais que visem o convívio social com o estabelecimento de regras como um estado e a troca de bens e serviços como mercado, o problema portanto não é a existência dessas entidades humanas e sim quando estas agem como concentradoras/acumuladoras de poder. O poder deve ser sempre descentralizado para que não haja tirania, ditaduras, monopólios e oligopólios acabam por ser maléficos, portanto, propostas devem ser democráticas e distributivas, na política por exemplo temos como solução a democracia direta.
  • O totalitarismo é ambidestro, e também pode ser multiétnico, multigênero, mercadológico ou estatal. Pode-se vir de qualquer um quando se trata da violação da liberdade, majoritariamente, claro, vem dos que detém poder.
  • Pode ser que minhas ideias de um mundo melhor para todos se enquadre majoritariamente numa corrente de uma ideologia, no entanto, pode haver discordância em alguns pontos da corrente e da ideologia, sendo preferível pontos de outras correntes e ideologias.
  • Se discordar, não agrida. Apresente seus argumentos de forma educada.
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