Idolatria e cegueira

Mario Sergio Cortella com sua cara de bonachão, que esbanja simpatia, uma retórica impecável e sua memória enciclopédica me fez lembrar do quanto a idolatria é maléfica ao dar um show, no programa Roda Viva exibido no dia 19 de setembro. Ao ser perguntado pelo ator e diretor Flávio Galvão por que admira Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, ele respondeu de forma lúcida e direta que admiração não é algo que nos isenta de críticas.

Veja o diálogo:

P.: Você é um grande educador […] e por ser um grande educador as vezes eu fico impressionado porque eu vejo você no jornal da cultura e você tem grande admiração pelo Lula, eu vejo a sua admiração e fica no seu olhar, no brilho do seu olhar, e ao mesmo tempo eu fico impressionado porque o Lula, ele tem uma coisa que me chama a atenção que é esse prazer em ser analfabeto, então essa glamourização do analfabetismo, sem qualquer preconceito porque ele poderia ter se alfabetizado antes, durante e depois da presidência, não é uma coisa que lhe ‘incomode’, não é uma dicotomia? (sic)

R.: Sim, haveria se fosse essa a única fonte de admiração, né? Por exemplo, a minha admiração pelo Lula ela não é contínua, ela não é nem inédita e nem ela é inesgotável, ela vem exatamente de um processo que ele vivenciou, que eu acompanhei desde os anos 1970, e que considero admirável. Eu não considero toda a trajetória dele admirável, considero que uma parte significativa, ela é admirável pela condição inclusive de ter feito o que fez, mas nenhum e nenhuma de nós é isento de observação crítica. Em relação a ele, nos tempos mais recentes, eu não tenho o mesmo olhar que tive, mas ainda continuo com esse tipo de percepção do lugar histórico que ele ocupou, dentro do nosso processo, no meu entender de maneira positiva, e agora nos tempos mais recentes tendo que se defender de algumas coisas que seriam comezinhas e que um gestor público não deveria participar daquilo que dá, por exemplo, decência a atividade, a capacidade de encantamento, uma liderança que deveria continuar sendo admirada e que não poderia de modo algum ter dado alguns passos – que ele afirma não ter dado, não ‘tá’ claro ainda para o conjunta da justiça, se o deu ele teria teria outro tipo de caminho. (sic)

Devo lembrar aqui que Cortella é de fato um gênio, filósofo e professor, mestre e doutor em Educação. Ele impressiona com a forma que se expressa, o modo como demonstra conhecimento. É um dos maiores intelectuais que nosso país já viu, mas idolatrá-lo, como o mesmo dá a entender que não devemos fazer, é abrir mão da razão crítica e apesar de todos os elogios ele merece críticas. É possível encontrar seus deslizes, e comportamentos questionáveis, como, exemplo, ser um dito eticista e ao mesmo tempo não respeitar os direitos animais – vi noutra entrevista ressaltando a tradição do churrasco -, se sua ética se restringe a humanidade, nesta perspectiva ele é um relativista do sofrimento, assim como tantos outros filósofos e intelectuais. Um homem como ele, sábio. Ele não escapa de deslizes no que diz respeito a lógica. Talvez ninguém. No entanto, isto não quer dizer que não tenhamos bons exemplos a seguir, e sim que mesmo os bons exemplos podem errar.

Daí podemos concluir que nem a figura mais esplêndida deve ser isenta de críticas. E a idolatria consegue fazer isto, nos tirar a capacidade crítica, pois apaga os defeitos e infla as qualidades. Não podemos, portanto, venerar pessoas, sejam elas históricas ou contemporâneas, religiosas ou reais. Podemos identificar milhares de qualidades, mas temos o dever de não esconder os defeitos para ressaltar alguém para além do que é.

Idolatria e cegueira andam lado a lado, podem até ser vistos como sinônimos por isto todo idólatra carrega uma cegueira, uma disfunção. Que ser pensa bem se só vê elogio Nenhum. Devemos admirar, mas não idolatrar.  Cobrar por mudanças positivas, dar críticas construtivas e exigir que nos cobrem por mudanças que nos critiquem quando estivermos sendo tolos, se  simplesmente nos blindarmos seremos narcisistas, que é algo como a idolatria de nós mesmos.

É preciso perceber que todos temos defeitos, e isto vai dos gurus espirituais como Jesus Cristo, os Orixás, Sidarta Gautama, Muhammad ‘Maomé’, Hippolyte Rivail ‘Allan Kardec’, Mahatma Gandhi, Rajneesh Jain ‘Osho’, Prem Baba, Madre Tereza de Caucutá, aos endeusados do mundo dos negócios como Warren Buffett, Bill Gates, Steve Jobs, Linus Trovalds, Elon Musk, Sergey Bin e Mark Zuckeberg. Até mesmo aqueles que mais exercitam o pensamento crítico como os famosos divulgadores científicos, como Carl Sagan,  Neil deGrasse Tyson, Mario Bunge, ou os mais sábios críticos políticos, como George Orwell, Bertrand Russell, Bertolt Brecht, Paulo Freire. Todos tem defeitos e apesar de admiráveis nenhum deve ser idolatrado.

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