É fundamental enxergarmos as semelhanças

Eu não gosto de todo mundo. Há muitas pessoas que me dão nos nervos, e não acho que seja um problema admitir isto, afinal sou humano e tenho emoções. Sou vegetariano, mas não amo os animais, seria desonesto se dissesse isto, esta é uma mentira que muitos advogam por aí. Nem ao menos gosto de todos animais, há bichos asquerosos, estranhos e desnecessários. Acredito que todo mundo seja assim, todos temos nossas preferências estéticas. Ora, não é possível viver só de amor, portanto usar esta sentença de forma literal em suas distintas expressões não é algo que podemos chamar de real, afinal, não é possível que alguém goste de todas os humanos ou animais, e se for, só pode ser algum transtorno.

Não obstante, é perfeitamente aceitável termos nossas inimizades e nossas desavenças, mas devemos perceber que estas inimizades não podem romper a linha do respeito aos direitos básicos. Veja bem, os indivíduos devem ter suas vidas preservadas, mesmo que eles nos provoquem intensamente sensações desconfortáveis ou que imaginar suas inexistências nos causem um pequeno alívio. Não estou relatando casos extremos e dizendo que devemos acariciar psicopatas, que homicidas devam ter sua liberdade ou que líderes genocidas devam ser idolatrados, e sim que devemos ser respeitosos com nossos “inimigos” políticos ou com aqueles sujeitos que achamos chatos o bastante para querermos longe. Temos diferenças com os outros – e sabemos que essas diferenças dariam listas que dariam livros -, mas temos também semelhanças fundamentais, como é a simples ideia que evitamos a dor e queremos ter prazer, que desejamos desfrutar a liberdade e aspiramos encontrar outros indivíduos que nos façam companhia. A esmagadora de nós humanos queremos isso, e boa parte dos bichos também.

Há milhares de razões para acharmos superiores e justificarmos nosso ódio nas diferenças, mas na igualdade fundamental que temos, não conseguimos justificar o mesmo. O ódio que conquistamos com nossos desafetos – ou mesmo a indiferença com aqueles que não enxergamos – pode nos fazer desumanizá-los, e esta é uma armadilha perigosa, não podemos nos considerar intelectualmente superiores a ponto de convertermos isto em uma suposta superioridade moral que nos dá a permissão da violência. Haveria alguma virtude ou necessidade real em comer animais, bater em mulheres, segregar pessoas pela cor de suas peles ou mesmo desejar a morte da família de quem não gostamos? Claro, são questões distintas, mas em lugares onde temos acesso a informação, sabemos que pessoas devem ser respeitadas e não passamos fome, podemos abrir mão destas coisas com o mínimo de esforço. Precisamos abrir nossa mente, considerando que os outros são indivíduos e merecem respeito. Não precisamos gostar da personalidade e do caráter de outros indivíduos, mas também não precisamos massacrá-los para suprir nossas necessidade egoístas e saciar nossos desejos estéticos. Nem a violência que é a carne e todo o processo para adquiri-la, nem a mesquinhez do poder de separar e dominar outras pessoas deveria ser considerado razoável onde apresenta-se propostas de superação destas práticas.

Precisamos progredir ainda em muitas questões enquanto pessoas para que a sociedade de fato abra mão da violência desnecessária e tenhas aparatos jurídicos que cobrem para que todos façam isso. E um passo para isso é aprendermos a lidar com um dos nossos defeitos, como é o caso a convivência com aquele que não queremos ver as semelhanças, os desafetos. Na nossa incapacidade de amar e de lidar com o diferente, não devemos nos agarrar ao ódio. Precisamos usar nossa visão crítica, deixando os maniqueísmos de lado. O respeito é o mínimo da civilidade, é a consideração do outro como indivíduo, que detém genuína e intrínseca importância, assim como nós mesmos. Precisamos superar nosso sentimentalismo – raivoso – e prezar minimamente a nossa razão, podar nossos anseios numa espécie de auto-crítica constante, percebendo mais o que nos une que o que nos separa. Assim percebemos que não precisamos amar para respeitar, precisamos respeitar para exigirmos respeito, este é o remédio para esta nossa fragilidade, e não podemos esquecer de tomá-lo. Nas desavenças cotidianas, doses diárias de empatia.

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