O argumento do declive escorregadio

Também chamado da ladeira escorregadia, é uma falácia que supõe que a partir de uma decisão presente, o futuro vai se tornar terrível. Supõe-se neste argumento que uma exceção traga consequências cada vez mais inaceitáveis em série.

A lógica é:

Uma proposta X é inaceitável por que ela virá a desencadear Y eventos que podem vir a desencadear Z eventos, e assim por diante.

Como o futuro a longo prazo é imprevisível este argumento parece confortável, por isto ele é bastante requerido em debates. Ele é usado pelo simples fato de que se não gostamos de algo podemos dizer o que aquele algo pode supostamente causar, mesmo que isto não seja uma previsão realista, e ninguém pode provar que estamos errados.

Esta falácia é bastante usada em debates políticos, em questões como a legalização do aborto, a legalização das drogas, a legalização das armas, a clonagem humana, entre outras coisas. Veja alguns exemplos:

  • Se legalizarmos as armas de fogo, os cidadãos irão aumentar o índice de violência e isto trará um grande problema de segurança pública, e então teremos um caos generalizado.
  • Se legalizarmos a maconha, não demorará para aprovarmos leis que liberam todas as drogas. Portanto, devemos proibir esta droga.
  • Se legalizarmos o aborto, as mulheres abortarão quando quiserem, assim acabaremos não julgando mais fetos e crianças como relevantes.
  • Se liberarmos o casamento gay ou incentivarmos os gays, logo, os gays irão ser maioria, isto acabará destruindo a humanidade, que não conseguirá mais procriar.
  • Se explicitarmos nudez ou falarmos de sexualidade para crianças, logo elas não terão mais noção dos bons costumes e se tornarão depravadas, isto acabará com nossa sociedade.
  • Não devemos beber, pois uma vez que fazemos isto é bastante difícil que paremos, assim isto pode vir a nos tornar alcoólatras ou mesmo iremos para outras drogas mais pesadas e isto acabará com nossa vida.
  • Se o nosso País fizer alguma parceria com o governo de países que se dizem socialistas, logo estaremos vivendo numa ditadura comunista.
  • O governo privatizou uma empresa, logo não teremos mais nenhum serviço público gratuito.
  • Se darmos esmola para alguém esta pessoa jamais procurará um emprego, ficará pelo resto da vida nessa condição.
  • Se clonarmos humanos, logo estaremos fazendo-os para transplantarmos órgãos para outros humanos.

Frequentemente a justiça toma medidas impopulares – com liminares de exceção – e muitas pessoas criam alarde, mas isto não quer dizer que tais medidas vão se tornar recorrentes. Os ideólogos – tanto ditos de esquerda, como ditos de direita – acabam por usar tais casos como ferramenta de pânico moral para tentar desmoralizar outros grupos considerados inimigos.

Vale lembrar aqui que abrir uma exceção, não quer dizer tornar a exceção regra, como dá-se a entender. Ou seja, apesar de não sabermos sobre o futuro, devemos evitar tais argumentos, pois nada garante que liberar as armas vai fazer com que as pessoas se matem por aí, que permitir o aborto vai fazer com que as mulheres saiam abortando, que liberar as drogas vai fazer com que muito mais pessoas se tornem viciadas e etc. Talvez com dados consistentes – que apresentam muitos outros lugares onde uma escolha teve a consequência que se espera – possamos afirmar que isto pode vir a ocorrer. Mas sobretudo, devemos tomar cuidado com os declives escorregadios em nossa argumentação.

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