A questão da homossexualidade

Vamos retornar à disputa sobre a homossexualidade. Se consideramos que as razões são relevantes, o que podemos concluir? O fato mais pertinente é que os gays estão perseguindo a única forma de vida que pode fazê-los feliz. Sexo, acima de tudo, é um impulso particularmente forte, e poucas pessoas podem ser felizes sem satisfazer as suas necessidades sexuais. Mas não devemos focar somente no sexo. A homossexualidade não é meramente sobre com quem você faz sexo; é sobre por quem você se apaixona. Pessoas gays se apaixonam do mesmo modo que pessoas heterossexuais se apaixonam. E, como heterossexuais, gays amiúde querem estar com, viver com e construir uma vida com a pessoa que amam. Dizer que os homossexuais não devem agir de acordo com seus desejos é, portanto, condená-los a uma vida frustrada. Deve-se acrescentar que pessoas gays não podem evitar a frustração com a escolha de se tornarem heterossexuais. Homossexuais e heterossexuais descobrem quem são após eles terem uma certa idade; ninguém decide por qual sexo quer ter atração.

Por que as pessoas se opõem aos direitos dos gays? Algumas pessoas pensam que os homossexuais representam um perigo para os outros. Frequentemente, a acusação, explícita ou não, é que homens gays são mais suscetíveis de abusarem de crianças. Tem havido, por exemplo, muitas campanhas nos Estados Unidos para demitir professores gays de escolas públicas, e o medo da pedofilia tem sempre avultado nessas discussões. A deputada Bachmann explorou esse medo quando ela falou o seguinte sobre o casamento gay : “Essa é uma questão muito séria porque é sobre as nossas crianças que são o maior presente para essa comunidade – [a comunidade gay ] está atingindo especificamente as nossas crianças”. Tal medo, porém, nunca teve base nos fatos. É um mero estereótipo, como a ideia de que os negros são preguiçosos ou que os muçulmanos são terroristas. Não há diferença entre gays e heterossexuais em relação aos seus caracteres morais ou às suas contribuições para a sociedade.

A objeção mais comum contra a homossexualidade pode ser que ela é “não natural”. O que devemos fazer com isso? Para acessar o argumento, devemos conhecer o que “não natural” significa. Parece haver três possibilidades.

Primeiro, “não natural” pode ser tomada como uma noção estatística. Nesse sentido, uma qualidade humana é não natural se a maioria das pessoas não a tem. Ser gay pode ser não natural nesse sentido, mas, então, também dever-se-ia julgar como não natural ser canhoto, ser alto e mesmo ser imensamente gentil. Claramente, essa não é uma razão para criticar a homossexualidade. Qualidades raras são boas, frequentemente.

Segundo, o significado de “não natural” poderia ser conectado com a ideia da finalidade de uma coisa. As partes de nossos corpos parecem servir a fins particulares. A finalidade dos olhos é ver e a finalidade do coração é bombear sangue. Similarmente, a finalidade dos órgãos genitais seria procriar. Sexo é para fazer bebês. Pode-se argumentar, então, que o sexo gay é não natural porque ele é uma atividade sexual que está divorciada de sua finalidade natural.

Isso parece expressar o que muitas pessoas têm em mente quando elas objetam que a homossexualidade é não natural. Porém, se o sexo gay fosse condenado por essa razão, então outras práticas amplamente aceitas deveriam também ser condenadas: masturbação, sexo oral, sexo com camisinha e mesmo sexo por parte das mulheres durante a gravidez ou depois da menopausa. Essas práticas poderiam ser exatamente tão “não naturais” (e, provavelmente, exatamente tão más) quanto sexo gay. Mas não há razão para aceitar essas conclusões porque toda essa linha de raciocínio é deficiente. Tais conclusões se fundamentam no pressuposto de que é errado usar as partes do próprio corpo para qualquer outra coisa senão para suas finalidades naturais. Por que devemos aceitar esse pressuposto? A “finalidade” dos olhos é ver: é, então, errado usar os próprios olhos para flertar ou para dar um sinal? A “finalidade” dos dedos poderia ser agarrar e empurrar: é, então, errado estalar os dedos para chamar a atenção de alguém? A ideia de que as coisas deveriam ser usadas somente de maneiras “naturais” não pode ser mantida, e, assim, essa versão do argumento falha.

Terceiro, haja vista a expressão não natural ter um som sinistro, ela pode ser compreendida simplesmente como um termo avaliativo. Talvez, ela signifique alguma coisa como “contrário ao que uma pessoa deveria ser”. Mas, se isso é o que “não natural” significa, então dizer que a homossexualidade é errada porque ela é não natural seria vácua. Seria como dizer que a homossexualidade é errada porque ela é errada. Essa espécie de observação vazia não providencia razão para condenar coisa alguma.

A ideia de que a homossexualidade é não natural e, por isso, teria que ser imoral parece correta para muitas pessoas. No entanto, não é um argumento sólido. Ele é falho em qualquer interpretação feita.

E sobre a pretensão, frequentemente feita, de que a homossexualidade é “contrária aos valores da família”? James Dobson, fundador do grupo de conservadores cristãos, focado na família, disse a seus seguidores: “Por mais de 40 anos, o movimento ativista dos homossexuais tem procurado implementar um plano-mestre que tem tido como seu ponto central a total destruição da família”. Mas como, exatamente, estão os homossexuais tentando destruir a família? Os ativistas gays estão realmente é querendo expandir a família. Eles não querem retirar quaisquer direitos dos casais heterossexuais. Ao contrário, eles querem tornar mais fácil para os gays constituírem famílias – eles apoiam o casamento de pessoas do mesmo sexo, os benefícios da sociedade doméstica, o direito dos gays adotarem crianças, e assim por diante. Os gays acham irônico que os defensores “da família” queiram impedi-los de ter famílias.

Talvez, toda essa conversa de “valores da família” equivalha a dizer: “Vamos ser claros, nós não temos famílias como essa”. Mas, se é assim, então se levanta a seguinte questão: o que está errado com uma família na qual as crianças são criadas por duas mães ou dois pais? O senso comum sugere que dois pais ou duas mães são melhores do que um, pois criar uma criança é uma tarefa imensa, e duas pessoas podem fazer grandes ações mais facilmente do que uma. Mas, mesmo que o número dos pais ou mães em uma casa importasse, não é claro por que o seu gênero deveria importar. O estudo mais amplo sobre as famílias gays é o U. S. National Longitudinal Lesbian Family Study, o qual acompanhou um grupo de mães gays desde 1980. Seus dados sugerem que os adolescentes das lésbicas estão melhores do que os adolescentes dos lares tradicionais. Algumas vezes, as crianças que têm pais gays são caçoadas na escola. Isso é difícil para elas. Mas, em geral, essas crianças têm menos problemas de comportamento e elas agem melhor do que seus colegas, social e academicamente. Não há boas razões para ser contra famílias gays.

Entretanto, os homossexuais continuam a ter desvantagens nos Estados Unidos. Algumas vezes, a desvantagem é uma questão legal. Legalmente, os heterossexuais podem casar em qualquer Estado, mas o casamento gay só existe em uma meia dúzia de Estados. Ademais, o governo federal não reconhece o casamento gay como legítimo, assim, ele provê os benefícios do casamento somente para os casais heterossexuais. Há centenas de tais benefícios, incluindo os benefícios da seguridade social que um cônjuge pode receber depois que o outro morre. Finalmente, na Flórida e em Arkansas, as pessoas gays não podem legalmente adotar crianças, ao passo que, naturalmente, os heterossexuais podem. A lei nos Estados Unidos certamente discrimina os gays. Ademais, em muitos outros lugares, as leis são ainda mais extremas. Em 76 países, o sexo gay é ilegal. Em alguns países, a punição é a morte.

À parte os problemas legais, há desvantagens sociais em ser gay nos Estados Unidos. É difícil crescer em um lugar onde 40% de seus vizinhos acreditam que alguma coisa está errada com você. Pior ainda, você percebe que alguns dos seus vizinhos têm ódio – eles sentem repulsa de você e o veem como menos do que humano. É especialmente triste quando uma pessoa jovem que foi ensinada a desprezar a homossexualidade começa a perceber que ele próprio ou ela própria é gay. Muitos gays, por medo ou vergonha, escolhem viver enrustidos. Porém, a longo prazo, é quase impossível esconder a própria sexualidade dos amigos, da família e dos colegas de trabalho. Nos Estados Unidos, os gays levam uma vida estressada. Entre os estudantes universitários americanos, os gays estão duas vezes mais propensos a tentar suicídio do que os seus colegas heterossexuais. Gays enrustidos são seis vezes mais propensos a tentá-lo.

Um argumento a mais tem de ser discutido, a saber, que a homossexualidade é condenada na Bíblia. Por exemplo, o Levítico 18:22 afirma: “Você não pode se deitar com um homem como se fosse uma mulher; é uma abominação”. Alguns comentadores disseram que, ao contrário das aparências, a Bíblia não é tão severa em relação aos homossexuais. Eles explicam como cada passagem (parece haver nove delas) relevante deve ser entendida. Mas suponha que aceitemos que a Bíblia condena a homossexualidade. O que podemos inferir disso? Nós temos que acreditar no que a Bíblia diz simplesmente porque ela diz isso?

Essa questão poderá ofender algumas pessoas. Questionar a Bíblia, acreditam elas, é desafiar a palavra de Deus. E isso, pensam elas, é um ato de arrogância advindo de criaturas que deveriam mostrar gratidão em relação ao todo -poderoso. Questionar a Bíblia pode fazer as pessoas se sentirem desconfortáveis porque pode parecer um questionamento a todo o seu modo de vida. No entanto, pensamentos como esse não podem nos fazer voltar atrás. A filosofia é questionamento sobre todo um modo de vida. Quando se oferta um argumento com base na Bíblia de que a homossexualidade é errada, esse argumento tem que ser acessado em seus próprios termos.

O problema com o argumento é que, se olhamos para outras coisas que a Bíblia diz, ela não parece ser um guia confiável para a moralidade. O Levítico condena a homossexualidade, mas também condena comer gordura de ovelha (7:23), deixar uma mulher que recém deu à luz entrar na igreja (12:2-5). Condena ver o seu tio nu. Este último caso, como a homossexualidade, é julgado uma abominação (18:14, 26). Ainda pior, o Levítico condena à morte aqueles que amaldiçoarem os seus pais (20:9) e aqueles que cometeram adultério (20:10). Ele diz que a filha de um padre, se ela “se tornar uma prostituta”, deve ser queimada viva (21:9), diz que podemos comprar escravos de uma nação vizinha (25:44). No Êxodo é mesmo dito que não há problemas em bater nos próprios escravos, desde que você não os mate (21:20-21).

A questão aqui não é ridicularizar a Bíblia. Ela contém, de fato, muita coisa que é verdadeira e sábia. Mas podemos concluir de exemplos como esses que a Bíblia não está sempre certa, e, porque ela não está sempre certa, não podemos concluir que a homossexualidade é uma abominação simplesmente porque isso é dito no Levítico.

De qualquer modo, nada pode ser moralmente certo ou errado simplesmente porque uma autoridade diz isso. Se os preceitos em um texto sacro não são arbitrários, deve haver alguma razão para eles – nós devemos poder perguntar por que a Bíblia condena a homossexualidade e então obter uma resposta. Será essa resposta que dará a explicação real de por que tal coisa é errada.

Porém, o ponto mais importante deste capítulo não é sobre a homossexualidade.
O ponto mais importante concerne à natureza do pensamento moral. O
pensamento moral e a conduta moral são uma questão de pesar razões e de ser
guiado por elas. Mas ser guiado por razões é uma coisa diferente de seguir os
próprios sentimentos. Quando temos sentimentos fortes, podemos ser tentados a
ignorar a razão e a ficar com os sentimentos. Mas, fazendo isso, optaríamos em
saltar fora do pensamento moral, completamente. Eis por que, focando em
atitudes e sentimentos, o subjetivismo ético parece estar indo na direção errada.


Retirado de Os Elementos da Filosofia Moral, Capítulo 3 – O subjetivismo na ética, 7a edição. James Raches e Stuart Rachels.

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