Bandido bom é bandido ________?

No dias das mães uma notícia ficou em alta na internet brasileira: uma policial foi participar da comemoração do Dia das Mães na escola onde a filha estuda e em reação a um assalto acabou matando o ladrão na porta de uma escola no bairro Jardim dos Ipês, em Suzano (Grande SP).

No vídeo é possível ver bem a cena, antes da reunião ela estava a paisana com outras mães e crianças quando de repente surgiu um homem apontando a arma e anunciando o assalto, em seguida na distração do bandido a policial coloca a mão em sua bolsa e dispara no peito do assaltante, ele cai e ela o imobiliza até o resgate chegar, no entanto, o assaltante acabou morrendo no hospital.

Muitas pessoas foram a internet parabenizar a corajosa atitude da policial, outras criticaram a atitude por ser arriscada ou por considerarem desproporcional, já outras lamentaram a morte do assaltante e relacionaram o triste caso com a mãe dele, que pode estar sofrendo a perda, e por fim relacionaram com o racismo.

Todos os pontos podem ser razoáveis se considerarem suas limitações mas na internet são sempre abordados de maneiras extremas. Se comemoramos tal atitude num desprezo absurdo pelo assaltante estamos endossando o discurso de que bandido bom é bandido morto independente do caso, mesmo alguém que está desarmado e tente furtar algo pode ser baleado seguindo esta lógica. É válido salientar que pessoas que discursam tal frase também cometem crimes, bandidagem é tudo aquilo que está fora da lei, assim deve-ser estender a regra à todas as pessoas que cometem crimes e eliminar provavelmente boa parte da população mundial. Se este discurso pretende ser razoável em algum nível é preciso especificar quais tipos de bandidos devem ser mortos, o que seria algo como a adequação da pena de morte, daí que a ideia de bandido bom é bandido punido à medida das leis é muito mais coerente, elas já servem para isso.

No outro lado quem lamenta a morte do bandido parece não perceber que ela agiu de legitima defesa independente de ter atirado no peito do criminoso. Foi ele que causou a situação de perigo e acabou sofrendo com ela. A policial fez o que pensou ser necessário para salvar as crianças e os adultos ali presentes, não sabendo se o criminoso iria atirar em alguém ou machucar um inocente, o que seria uma tragédia muito maior. Quem atacou a policial acredita que ela deveria ter agido com mais calma e frieza, todavia só o ato de ser uma legítima à vida de pessoas inocentes já justifica medidas drásticas com a pessoa que é a causa daquilo.

De forma irônica as pessoas perguntam e se fosse alguém da sua família que estivesse no lugar do assaltante? Este é um apelo emocional, a regra para o caso ocorrido deveria ser para todos e não só para estranhos, se a policial por acaso matasse alguém de nossa família exatamente da mesma forma o discurso não deveria mudar. E se você soubesse que o assaltante vai dar um tiro na sua filha você esperaria para atirar na perna dele? O incoerente ter um discurso que tenha dois pesos e duas medidas, como é o caso do vago bandido bom é bandido morto.

Criminosos podem ser pessoas necessitadas que em situações desesperadoras acabam por apelar ao crime, podem viver num ambiente opressivo e de extrema dificuldade, mas a escolha final é do indivíduo. Colocar a vida dos outros em risco acaba por ser um risco para si mesmo sabendo previamente que as pessoas podem se defender e inclusive tentarem te matar, e foi o que aconteceu. Podemos comemorar a vida dos inocentes que foram salvos e ainda sim lamentar uma sociedade onde há muita desigualdade, podemos também pensar que ele deveria ter sobrevivido para pagar sua pena em uma cadeia – mesmo que já tivesse diversas passagens sem punição – e podemos pensar que devíamos estar em uma sociedade melhor, mas não estamos. Houve a situação, houve a vítima, mas não foi a inocente, ponto.

Houve quem configurou a situação como um caso de racismo e perseguição ao povo negro além de uni-lo a extensa violência policial. Tal correlação não parece verdadeira na situação que se apresentou, pois a policial provavelmente teria agido da mesma maneira independente do sujeito que ali estivesse, haja visto o alto risco que se apresentou. É preciso combater o racismo de fato e a violência contra os negros, mas será mesmo que a negritude do assaltante interferiu no reflexo da policial?

Dizer que neste caso específico a policial não agiu de forma absurda ou com abuso de poder não quer dizer que se endossa a violência policial. A violência policial e o abuso de poder da instituição é um caso grave no Brasil e em outros países e deve ser combatida, inclusive, a desmilitarização da polícia é uma proposta interessante neste sentido. O mais interessante é que não é preciso comprar um pacote de ideias de uma vertente política e se alienar em casos extremos como foi o que aconteceu.

Eu achei este vídeo interessante porque é exatamente isso que acontece. O ato virou o discurso dos problemas estruturais, virou ideológico, foi reduzido a esquerda x direita. Onde quem tá no pacote da esquerda tem que defender a todo custo a dor da mãe do rapaz que morreu por estar assaltando, e quem tá no pacote da direita tá comemorando como algo lindo de se ver. Eu, prefiro entender existem problemas estruturais e acredito que tem que ser consertados, e também que não é legal pensar que ver alguém morrendo é divertido e que o sofrimento da mãe do rapaz morto é triste e ao mesmo tempo não foi absurdo o que a policial fez – até o Sakamoto que é o maior defensor dos direitos humanos no Brasil sacou essas coisas, no oposto o humorista Danilo Gentili fez também um discurso ponderado.

Me corrijam se eu estiver errado, trocar ideias é sempre bom!

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