A era das mentiras

Os maiores líderes do mundo sempre usaram discursos distorcidos para fazer política, mas agora estamos mergulhados numa guerra ainda mais profunda de ideologias – e de mentiras

A série Chernobyl, exibida recentemente na HBO, mostra que a União Soviética tentou ocultar o acidente do restante do mundo por motivações ideológicas. Naqueles tempos eles estavam em plena guerra fria e dizer que sua tecnologia era inferior a do ocidente – e dos EUA – era politicamente inviável, portanto, o melhor a se fazer foi tentar distorcer os fatos.

Apesar do avanços diplomáticos entre ocidente e oriente, estamos vivendo tempos diferentes. O nosso modo de vida foi alterado drasticamente após a popularização da internet: em questão de segundos falamos com alguém do outro lado do mundo, podemos produzir conteúdo e não só consumir e estamos conectados de forma direta as celebridades.

Não diferente, a comunicação entre políticos e população se tornou direta, seus discursos não passam mais por um intermediador, o que facilitou drasticamente a propagação de discursos manipulados e mentiras. A mídia têm perdido relevância para as pessoas, mas inversamente à este fenômeno seu papel é cada vez mais necessário: precisamos a checagem dos fatos.

Se por um lado a internet disseminou conhecimento e tornou alguns de nós mais inteligentes, por outro ela reverberou ignorância e desinformação e nos tornou ainda mais cegos.

Políticos e ideólogos têm seus discursos enviesados, mas as ações destes discursos nem sempre podem ser coerentes com a realidade. Os dados científicos – com ajuda do jornalismo – muitas vezes podem mostrar se suas afirmações são verdadeiras e se as suas ações são pautadas em bons exemplos.

Algo que nos torna ainda mais reféns das mentiras – que nós mesmos acreditamos – é a personalização de conteúdo de acordo com as crenças. Os algoritmos reforçam nos viéses nos fornecendo aquilo que gostamos e evitando aqueles que discordam de nós, portanto vivemos cada vez mais convictos e cada vez num mundo mais separado.

Vale lembrar que não são só os políticos que mentem. Nós vivemos em uma sociedade baseada em mitos, que mente para si mesma. Governos ainda têm leis baseadas em convenções culturais e não em justiça e imparcialidade, empresas mentem para obter mais lucro, pessoas são movidas mais pela fé que pela razão, equiparando pseudociências ao conhecimento científico.

As ideologias políticas e econômicas são só mais uma das versão das ficções que acreditamos e que podem nos enganar. Fato é que a verdade não se importa com o que pensamos, ela não se importa com nossas religiões, ficções e ideologias, ela apenas é. A verdade não é democrática, se um fato existe há uma causa e essa causa independe do discurso que nós damos, isto é, a vontade de que algo seja verdade não torna necessariamente essa coisa verdadeira.

A melhor maneira para chegarmos à verdade é uma investigação minuciosa e metódica, com testes e averiguações. Isso serve para grafarmos a história, para descobrirmos como a natureza funciona e para entendermos quais ações – políticas ou não – funcionam melhor.

Apesar disso tudo, há algo mais profundo que o meio em que vivemos agora, o que nos torna reféns dos políticos, dos governos e das ideologias, é também a nossa falta de visão critica. Nós somos muito mais motivados pela crenças e pelas emoções que pela busca da verdade, as mentiras são mais confortáveis, nos dão mais poder, nos fortalecem socialmente, nos dão sentido e explicam as coisas que não podemos responder.

Não evoluímos para sermos racionais e sim para respondermos às dinâmicas de grupo, por isso nós somos naturalmente falhos. O instinto de sobrevivência, a busca por prazer, conforto e poder, não nos ensina a viver de maneira honesta, nós precisamos das mentiras, e a medida em que somos importantes mais consequências elas têm.

Ainda vivemos assombrados por demônios e fantasmas, mas o maior medo que deveriamos ter é a nossa ignorância e a capacidade de viver grandes mentiras. As mentiras sustentam grupos ao mesmo tempo que destroem outros grupos, elas separam e destroem. Elas também podem destruir a nós mesmos quando escolhemos um caminho falso ao invés da alternativa que poderia factualmente resolver um problema.

Os governos são feitos por pessoas, as pessoas são mais irracionais do que pensam que são, então os governos também. Imersos em mentiras os governos, em nome de suas ideologias, ignoram os problemas fundamentais, enquanto se esforçam para combater inimigos que não existem. O mundo precisa de políticas públicas baseadas em evidências, mas enquanto a destruição do meio ambiente, a pobreza, a fome, a violência, o desemprego, não são resolvidos os políticos se esforçam em pseudosoluções, para fortalecer sua visão investem em publicidade para fortalecer as meia-verdades.

Não se previne os problemas, esperam eles estourarem para então tentar resolvê-los, mas as sequelas já estão reverberando. E ainda pior, tentam a solução ignorando as evidências e o conhecimento. Armas livres para reduzir a violência, muros gigantes para proteger as fronteiras, supressão da mídia antigoverno para levar a verdade. Trump, Putin e Bolsonaro, que verdade querem nos mostrar, as que contam ou as que existem? Eu prefiro as que existem.

Agora, na pós-verdade, vemos depoimentos e notícias falsas sendo usadas para deslegitimar os outros numa constante guerra ideológica, num próximo passo estaremos vendo mentiras em áudios e vídeos manipulados com inteligência artificial, precisaremos de ainda mais apelo à razão, antes que até as verdades que descobrimos até agora sejam vistas apenas como histórias ou apenas um discurso.

Além da ética que nos mostra que precisamos praticar um altruísmo efetivo ao invés de combater aqueles que o buscam pensar sermos melhores, o povo, os governos e governantes, devem olhar para os números e também para além deles. Para resolvermos o mundo nós precisamos questionar nossas crenças e valorizar o conhecimento científico, precisamos dar valor ao valor da verdade.

A ilusão de verdade ou pequenas mentiras altruístas podem ser inofensivas, mas grandes mentiras têm grandes consequências. A subjetividade importa, mas a objetividade que define se nossas escolhas têm maiores chances de dar certo ou se iremos retroceder. Precisamos mudar o modo que pensamos e operamos para então mudarmos o mundo, antes que a ganância e essas mentiras matem à todos nós.


Qual é o custo da verdade? Não é que podemos confundi-la com a verdade. O perigo é real se ouvirmos mentiras o bastante e não reconhecermos mais a verdade. E o que podemos fazer? O que restará além de esquecer até a esperança de verdade, e nos contertarmos em vez disso com histórias. Nessas histórias, não importam quem são os heróis, eles só querem saber quem é o culpado.

A mentira é o que nos define. Quando a verdade ofende, mentimos até não nos lembrarmos mais dela, mas ela continua lá. Cada mentira que dizemos incorre em uma dívida à verdade. Mais cedo ou mais tarde, essa dívida é paga.

Num mundo justo, eu seria morto pelas mentiras, mas pela verdade, não.

Ser cientista é ser ingênuo. Focamos tanto na procura pela verdade que não consideramos que poucos querem que a encontremos. Mas ela está sempre lá, quer a vejamos ou não, escolhamos ou não. A verdade não se importa com o que queremos. Não se importa com os nossos governos, nossas ideologias, nossas religiões. Ela ficará à espera para sempre. E isto, por fim, é a dádiva de Chernobyl. Já temi o preço da verdade, mas agora apenas me pergunto… qual é o preço das mentiras?

Frases ditas por Valery Legasov na minisérie Chernobyl, exibida pela HBO.


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