Planeta Guerra

um conto de ficção política por Julio Cesar Prava

(TV) AVISO OBRIGATÓRIO: Boa noite, 5 de maio de 2095. Algumas de nossas tecnologias tiveram muito sucesso, outras não. Entramos em um ponto crítico do planeta, por isso as 5 nações globais entraram em um consenso. Todas as empresas agora terão um limite máximo de produção, serão taxadas pelo impacto ambiental e em seus produtos será obrigatória uma bula com a listagem do impacto ambiental e para a saúde, além disso anúncios pró-consumo estão proibidos em todo o mundo. Como papel social da mídia, nós temos o dever informar que todas as pessoas devem reduzir seu consumo drasticamente no próximo semestre, algo em torno de 80%. O mundo que nos últimos anos incentivou um modo de vida consumista agora já não pode ser assim. Devido às consequências dele precisamos reiterar o mínimo consumo. Nossa emissora errou ao não perceber que poderíamos chegar a este ponto, nossas sinceras desculpas à humanidade. Agora endossamos o relatório global e nossas atividades se restringirão à informar a população sobre mudanças de hábito que necessitaremos.

(Jay) Tá vendo Liv, desde 1960 as pessoas estavam alertando que o planeta não iria aguentar, mas só agora que as nações unidas fizeram um pacto global pra frear o que o capitalismo-consumista causou. Você também sempre esteve certo, amor (se aproxima e dá um selinho).

(Jay) Por isso eu desisti de escrever. Nós já estávamos num ponto crítico, agora nós estamos tentando sobreviver.

(Liv) Eles te ligaram esses dias pra ir à TV não é?

(Jay) Sim, sim…

(Liv) E você vai?

(Jay) Não sei ainda. Foram anos me chamando de lunático. O negacionismo se instaurou nos governos de tal forma que a verdade não era mais importante, a tecnologia sozinha não deu conta, por que agora precisam de mim?

(Liv) Acho que precisam de esperança. Se você não for pode ser pior.

(Jay) As guerras voltarão. Esta entre uma das consequências, agora simplesmente não podemos mais restaurar o planeta e a esperança só fará com que as pessoas morram felizes.

(Liv) Você preferiria morrer feliz ou triste se já não soubesse o final?

(Joy) Acho que Eu preferiria não saber.

(Liv) Então você tem a resposta.

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(Tex) Que bom que aceitou nosso convite para discutir a questão do ambiente global.

(Jay) Estou aqui pelas pessoas.

(Tex) Ótimo! Então provavelmente irá nos ajudar. Entraremos ao vivo em 15 minutos.

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(Tex) Estamos aqui com a especialista, que andava um pouco sumido, mas resolveu aparecer para falar um pouco sobre o recente comunicado geral das nações. Primeiro nós devemos desculpas a ele que nos alertou sobre o clima mas foi tratado de forma desrespeitosa pela comunidade midiática. Em nome da emissora nós te devemos sinceras desculpas Jay Lixxander. Agora vamos ao assunto. Como vocês viram estamos em um estado crítico e precisamos reduzir nosso consumo em 80% no prazo de 1 ano, caso não consigamos o planeta irá colapsar. É isso mesmo Jay?

(Jay) Exato. E será uma tarefa muito difícil, nós procrastinamos por muito tempo para notar o que estávamos fazendo com o planeta. Transformamos planetas tropicais em cerrados e espaços para monoculturas, extinguimos 90% da biodiversidade e destruímos a camada de ozônio também. Para que nossos planos, de sobreviver, deem certo precisaremos que todas as pessoas colaborem se adequando consumindo o mínimo possível. Estamos em colapso. Entrarmos agora em uma recessão global, milhares de empresas fecharão as portas, muitas pessoas devem voltar a vidas que não víamos desde 2040, quando se extinguiu a pobreza extrema no mundo.

(Tex) Palavras duras porém necessárias. Você pode nos lembrar como chegamos até este ponto?

(Jay) Claro. Como ambientalistas alertam há muito tempo devíamos ter acabado com a ideia de desenvolvimentismo. Como eram forças econômicas poderosas as mineradoras, a pecuária e pesca industrial, entre outras, não foram cobradas devidamente pelo impacto que geraram nos últimos 50 anos, e nem se importaram com isso. Elas recebiam subsídios governamentais e não havia qualquer imposto sobre o impacto que causavam ao planeta. Aliás, elas fizeram lobbying político e científico destruindo alternativas viáveis ao invés de se adequarem à tecnologias com menos impacto. A pecuária, por exemplo, entre 2020 e 2025 começou a ser confrontada com a tecnologia da carne feita em laboratório. Essa tecnologia não precisava criar animais em pastos ou fábricas tradicionais, bastava 5% do mesmo espaço para produzir tecidos cárneos, isso pouparia terra, água e as florestas. Além disso, gastava menos energia. Mas a pecuária da época, apesar de ter dado algum indício que seguiria nesta direção acabou abandonando o projeto. Os grandes pecuaristas acabaram se unindo e compraram cientistas, como foi descoberto mais tarde, para fazer as pessoas acreditarem que a carne de laboratório não era saudável e manipularam dados dizendo que ela também tinha grande impacto ambiental, o que também era uma mentira. Assim a mídia comprou e espalhou a ideia que acabou ajudando a sepultar esta que seria uma solução viável, só em 2060 a tecnologia foi retomada e a pecuária se transformou de vez. Neste ano porém, já haviam 2 bilhões de bois e vacas no mundo, mais de 4 bilhões de galinhas e mais 10 bilhões de outros animais ditos de produção. Levou mais de uma década até que os animais deixassem de ser o principal produto desta industria, mas já era tarde, as florestas não haviam sido reconstruídas como o planejado. Esse tipo de ação ocorreu também nas outras áreas citadas, que em nome do lucro postergaram mudanças.

(Tex) Falando a nível individual, como poderemos ajudar efetivamente?

(Jay) Uma ideia anticonsumista difundida no início do século 20 é nossa única saída. O minimalismo. Devemos agora consumir o mínimo que pudermos, precisaremos ser rigorosos. Precisaremos comer menos, gerar menos lixo, nos limpar menos, nos transportar menos, quando consumirmos precisaremos procurar alimentos mais próximos de nossas casas. Ao invés de globalização precisaremos de mercados locais, isso os que restarem. Como disse, serão tempos difíceis. Nós produzimos riqueza o tanto quanto fomos capazes, mas ela não vale nada sem um planeta apta para vivermos.

(Tex) Excelente! Agora iremos ao intervalo e logo voltaremos com a especialista em meio ambiente crítico, Jay Lixxander.

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(Liv) Sua apresentação foi ótima. Estou orgulhoso de você.

(Jay) Obrigada, amor. Fiz o que pude. Mas não há mais esperança em mim.

(Liv) Suportamos grandes coisas, talvez a pressão faça as pessoas mudarem de verdade.

(Jay) Sou cético quanto a isto, elas já escutam sobre esse tema há quase um século e a maioria delas sempre ignorou os alertas, sofreram lavagem cerebral. O planeta poderia ser paz mas agora é guerra.

(Liv) Mas elas podem despertar dessa lavagem agora. O comunicado foi global.

(Jay) As pessoas que fumam cigarro se importam com o aviso de que elas têm altas chances de pegarem câncer de pulmão? Não mesmo.

(Liv) É verdade, mas quando elas pegam câncer e se recuperam elas param de fumar.

(Jay) O problema é que o câncer é no planeta não nelas. Elas ainda vão consumir enquanto não passarem fome. Aí já estarão no fim da linha.

(Liv) E quanto a nós, o que faremos?

(Jay) Nós fumaremos cigarros.


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